Editorial No. 134 (Abril, 2025) – “Suicídio. Fatores de risco”

Editor responsável: Fabio Dionisi
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br

Caro leitor, para abordar assunto tão profundo e complexo, acreditamos que devamos iniciar reportando-nos ao que o Ministério da Saúde tem a dizer a respeito.

Em trabalho publicado em 2006 1, encontramos alguns dos fatores de risco associados à ideação suicida: transtornos mentais (especialmente a depressão), sociodemográficos (pertencer a grupos minoritários, discriminados), abalos psicológicos, condições clínicas incapacitantes (restrições decorrentes pela perda da saúde), já ter tentado se matar.

Quanto ao primeiro, a entidade lista de forma decrescente as razões imputadas ao suicídio: transtorno de humor (depressão), transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de substâncias psicoativas (alcoolismo, medicamentos psiquiátricos, drogas, etc.), transtornos de personalidade (mormente os de borderline, narcisista e antissocial), esquizofrenia, transtornos de ansiedade (quando atinge o nível de ansiedade patológica).

Os dados coletados imputam os seguintes fatores sociodemográficos como os mais expostos ao risco de suicídio: ser do sexo masculino (nas faixas etárias entre 15 e 35 anos e acima de 75 anos), vivenciar problemas econômico-financeiros extremos, como a perda de emprego, ser residente em área urbana (95% dos casos de suicídios notificados), ser aposentado, isolamento social, solteiros ou separados, migrante.

Fatores psicológicos apontados: perdas recentes, dinâmica familiar conturbada, personalidade com traços significativos de impulsividade, agressividade, humor lábil.

Adicionalmente, o Ministério da Saúde inclui as condições clínicas incapacitantes, tais como: doença orgânica incapacitante, dor crônica, lesão desfigurante perene, epilepsia, trauma medular, neoplasia maligna, aids.

Embora sejam tantos, baseado em estudos da OMS (Organização Mundial da Saúde), o Ministério da Saúde aponta como os dois principais fatores de risco para o morte auto afligida: (a) história pregressa de tentativa de suicídio; ou seja, já ter sido tentado anteriormente, (b) a presença de transtorno de ordem mental.

Estudos em diferentes regiões do mundo têm demonstrado que, na quase totalidade dos suicídios, os indivíduos estavam padecendo de um transtorno mental. 2 (p. 206-207)

De um estudo efetuado por J. M. Bertolote e A. Fleischmann 3, referentes a 15.629 casos de suicídio, abstrairemos as seguintes estatísticas: (1) depressão (transtorno de humor): 35,8% dos casos; (2) transtorno relacionado com uso de substâncias (drogas lícitas e ilícitas): 22,4%; (3) transtorno de personalidade: 11,6%; (4) esquizofrenia: 10,6%; (5) transtorno de ansiedade e somatoforme: 6,1%.

Para se ter uma ideia da gravidade da depressão, segundo dados da OMS (2012), o transtorno atinge mais de 350 milhões de pessoas em todo o mundo 2 (p. 207). Ou seja, cerca de 5% da população mundial! Por isso, a alcunha de “O mal do século”.

A esquizofrenia, embora abranja uma parcela menor, merece nossas considerações.

Segundo o Ministério da Saúde 1, encontramos que a esquizofrenia se situa ao redor de 1% da população, em termos tanto globais quanto no Brasil; e que aproximadamente 10% dos indivíduos que possuem esquizofrenia morrem por suicídio.

Novamente, nosso órgão máximo da saúde conclui que a maneira mais eficiente de se reduzir o risco de suicídio nessas pessoas, bem como em outros transtornos mentais, é o tratamento correto.

Prosseguindo… De acordo com o mesmo relatório 1, estima-se que cerca de 11,2% da população brasileira era dependente de álcool no ano de 2006; mas, isso não é nada em comparação com o número de pessoas que faziam uso nocivo do álcool, mesmo sem terem atingido um padrão de dependência. E que, a cada dia que passa, mais e mais jovens fazem uso abusivo e tornam-se dependentes do álcool.

Infelizmente, a coisa é mais complexa do que possa parecer à primeira vista, uma vez que a dependência alcoólica está associada à vários transtornos psiquiátricos. Tanto que hoje em dia ela é responsável por uma boa parte das internações psiquiátricas, aqui no Brasil. 1

No que tange ao suicídio, o álcool aumenta a impulsividade e, com isso, o risco de lograr o auto extermínio.

Quanto ao que se deve fazer para ajudar um dependente: “Até recentemente, a internação era vista como única alternativa terapêutica (…). Atualmente, com o aprimoramento das intervenções psicossociais, o surgimento de novos fármacos, a redução do caráter moral na compreensão das dependências e com a maior participação da família no tratamento, é possível que o tratamento seja ambulatorial. Manter o paciente na sua vida cotidiana facilita a identificação e o enfrentamento dos riscos do consumo, além de permitir a reorganização de sua vida sem ter o álcool como prioridade.” 1

Dando continuidade aos nossos estudos, segundo ao oportuno manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental, nos transtornos de personalidade, o indivíduo apresenta duas características básicas: (a) sofre e faz sofrer quem está ao seu derredor, (b) não aprende com a experiência… Ou seja, não é só ele que sofre, mas toda a família e as pessoas a ele afeiçoados.

Além disso, o transtorno de personalidade não se modifica facilmente, uma vez que a tendência é se manter estável ao longo de toda a vida do indivíduo.

Quanto à predisposição ao suicídio, o risco é maior para os indivíduos com as características de personalidade descritas a seguir. 4

Como lidar com essas pessoas? Definitivamente, esses pacientes necessitam de apoio de equipe assistencial e de limites para se adequarem ao ambiente em que vivem e às limitações existentes.

Continuando a nos valer do estudo publicado em 2006 1, aprendemos que para se chegar a intenção do suicídio passa-se por estágios.

O primeiro, em geral, é a contemplação da ideia suicida (imaginação), para depois se entrar no estágio da elaboração de um plano de como se matar, que pode ser implementado por meio de ensaios realísticos ou imaginários, culminando com à própria ação destrutiva, ou seja, o suicídio. Entretanto, o resultado mesmo de um ato suicida depende de múltiplas variáveis que nem sempre envolve planejamento.

A maioria das pessoas sob o risco de suicídio apresentam três características psicológicas próprias do estado em que se encontram: 1 (1) Ambivalência: uma atitude característica das pessoas com ideação suicida. Quase sempre desejam, ao mesmo tempo, alcançar a morte, mas, também, viver. No predomínio do desejo de vida sobre o desejo de morte, encontra-se um fator que possibilita a prevenção do suicídio. Muitos deparam-se numa luta interna entre os desejos de viver e de acabar com a dor psíquica.. (2) Impulsividade: o suicídio pode ser também um ato impulsivo; por isso, pode ser transitório, (3) Rigidez/constrição: “o estado cognitivo de quem apresenta comportamento suicida é, geralmente, de constrição.”

O indivíduo sob risco, isto é, que está com a firme ideia de se auto extinguir, passa apresentar características típicas, como a dicotomia de posição (“o tudo ou o nada”), os pensamentos, sentimentos e ações ficam girando em torno da ideia de que o suicídio é a única solução, tornando-se incapaz de perceber uma maneira de sair do problema que o oprime, e é rígido e drástico em sua posição. 2 (p. 210)

Outro aspecto psicológico marcante é que comunicam seus pensamentos e intenções suicidas… Dão sinais e fazem comentários sobre “querer morrer”, “sentimento de não valer pra nada”, e assim por diante. A bem da verdade, psicologicamente falando, todos eles são pedidos de ajuda. Por isso, quem está próximo deve permanecer atento, uma  vez que os sinais e comentários estão quase sempre presentes.

Cabe a nós, portanto, ser a ponte entre nosso irmão que sofre e o profissional capacitado a ajudar.

Fiquem com Deus!

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1 Prevenção do Suicídio. Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. Alguns fatores de risco para o suicídio. Ministério da Saúde. 2006.

2 DIONISI, Fabio. Suicídio. Precisamos falar a respeito! Ribeirão Pires: Editora Dionisi, 2019.

3 BERTOLOTE, José M. e FLEISCHMANN Alexandra. Suicide and psychiatric diagnosis: a worldwide perspective. Departamento de saúde mental e dependência à substâncias. WHO World Health Organization. 2002.

4 Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed Editora, 2000.

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O autor é editor, articulista, escritor, palestrante, jornalista; responsável pelo CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br

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