As aparições de Jesus após a sua morte

Obra: Conheça o Espiritismo – Textos selecionados da Teoria e Prática da Doutrina Espírita
Autor: Fernando Louzada
Capítulo 6 – “As aparições de Jesus após a sua morte”*

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Todos os quatro evangelistas narram as aparições de Jesus após a sua morte, fazendo-o com riqueza de detalhes, a fim de não pairar qualquer dúvida sobre a realidade do fato. Essas aparições se explicam perfeitamente pelas propriedades do perispirito, pois, observando-se cuidadosamente as circunstâncias em que ocorreram, nelas reconhecem-se todos os caracteres peculiares a um ser fluídico.

O Mestre aparece inopinadamente e do mesmo modo desaparece; uns o veem, outros não; com aparências diversas de modo que nem os seus discípulos o reconhecem de pronto. Penetra a matéria, adentrando recintos fechados; sua linguagem peca pela falta de vivacidade de um ser, corpóreo fala com os seus discípulos em tom breve e sentencioso, observando-se claramente em todas as suas atitudes que ele já não faz parte do mundo terreno. Suas aparições são produzidas de tal maneira que causam simultaneamente surpresa e assombro; a conversa com os seus apóstolos não é feita com a mesma liberalidade de antes, pois, eles pressentem que já não se trata de um ser corpóreo.

É patente, pois, que Jesus se mostra através do seu corpo perispiritico, o que explica que ele somente tenha sido visto pelos que ele desejava que o vissem. É fora de dúvida que, se ele estivesse com seu corpo carnal, todos os veriam da mesma forma como acontecia antes da morte na cruz.

Muitos afirmam de que Jesus, durante a sua vida terrena, tivesse um corpo fluídico, não passando de uma aparição tangível, um agênere.

Se tudo fosse apenas aparente, todos os acontecimentos de sua vida, as reiteradas predições de sua morte, a cena extremamente comovente da última prece no Horto, quando rogou a Deus que, se fosse possível, lhe afastasse dos lábios o cálice de amargura, sua paixão, sua agonia, tudo que até o último brado, no momento de expiar, teria sido um vão simulacro.

Antes de sua morte na cruz, o Mestre tinha um corpo material de natureza semelhante ao de toda a gente, pois, se assim não fora não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que ele tivesse apenas um corpo fluídico, antes da crucificação, é tirar-lhe o mérito de toda a sua vida entrecortada de sofrimentos, que ele próprio havia escolhido para que a sua imorredoura mensagem fosse acolhida pela Humanidade.

Após o hediondo episódio de sua crucificação, o corpo de Jesus se conversou inerte e sem vida; foi sepultado como o são de ordinário os corpos e, além disso, muitas pessoas puderam vê-lo e tocá-lo.

Como querendo dar uma demonstração de seu grande apreço a Maria Madalena, uma de suas mais delicadas assessoras, o Espírito de Jesus apareceu a ela em primeiro lugar, dando-lhe uma merecida prioridade. Estando ela chorando perto do sepulcro, como se abaixasse para ver melhor o lugar onde o corpo de Jesus havia sido colocado, ela viu dois Espíritos de grande elevação, vestidos de branco e assentados no lugar do sepultamento, onde já não estava mais o corpo. Ao ser inquirida sobre o motivo de suas lágrimas, disse ela: “É que levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.”

Em seguida ela viu um homem que ela julgou ser o jardineiro e lhe fez a seguinte indagação: “Senhor, foste tu quem o tirou, diga-me onde o puseste?”

O irreconhecível personagem então exclamou: “Maria!” Logo ela reconheceu ser Jesus, e, voltando-se disse: “Rabboni! Isto é: Meu Senhor.” Logo a seguir disse-lhe o Mestre: “Não me toques porquanto ainda não subi para meu Pai; mas, vai ter com meus irmãos e dize-lhes de minha parte: Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus.”

Nessa descrição evangélica observamos dois detalhes interessantes: O Mestre deu demonstração de que não tinha mais um corpo físico, por isso não permitiu que Madalena o tocasse e se transfigurou ao ponto de se tornar irreconhecível e ser confundido com o jardineiro.

Afirmando a Maria Madalena: “Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus”, Jesus deixou bem claro que não é Deus, o Criador de todas as coisas, mas uma de suas criaturas; uma criatura cujo Pai e cujo Deus são os mesmo que os dos homens; criatura que, semelhantemente a todas as demais, como essência espiritual, teve, na origem de sua criação que se perde na noite das eternidades, o mesmo ponto de partida. Essas palavras do Mestre Nazareno são um desmentido formal aos homens que, no século IV, forjaram o incrível dogma da trindade, pelo qual o Deus, uno e indivisível, foi subdividido numa entidade trina.

Nesse mesmo dia, após ter surgido aos olhos atônitos de Maria Madalena, Jesus apareceu junto a dois discípulos que se dirigiam de Jerusalém para Emaús, tornando-se novamente irreconhecível. Ao longo do caminho, mantiveram prolongada discussão, tendo o Espírito de Jesus abordado, principalmente, alguns aspectos da missão que o Messias viera desempenhar na Terra. Chegando a Emaús, Jesus deu a entender que deveria prosseguir em sua caminhada, entretanto, como o dia se declinada, os dois discípulos convidaram-no a permanecer em Emaús. Acatando o atencioso convite, o Espírito do Mestre ficou com eles e, quando estavam à mesa, ele tomou do pão, abençoou-o e repartiu-o. Nisso eles reconheceram que o personagem desconhecido era Jesus; entretanto, logo a seguir, ele desapareceu de suas vistas, levando-os a dizerem: “Não é verdade que o nosso coração ardia dentro de nós, quando ele pelo caminho nos falava, explicando-nos as Escrituras?”

Cabe aqui esclarecer que a primeira aparição de Jesus a Madalena foi simplesmente visível e audível, porém, não foi tangível. No caso dos dois discípulos de Emaús, ela aconteceu de modo diverso: foi visível, audível e tangível. A circunstância de ter Jesus desaparecido logo após ter partido e distribuído o pão, e ter-se dado a reconhecer, evidencia, mais uma vez, naquela altura dos acontecimentos, que ele era um Espírito despido do corpo físico. O Mestre podia, à sua vontade, dar ou retirar a tangibilidade do seu corpo perispiritual.

Após a retumbante manifestação do Espírito de Jesus, no caminho de Emaús, os dois discípulos voltaram incontinenti a Jerusalém, onde os apóstolos e alguns discípulos estavam reunidos, num recinto fechado. Os dois passaram, então, a narrar o que lhes havia acontecido no caminho de Emaús. Enquanto assim confabulavam, o Espírito de Jesus se apresentou no meio deles e lhes disse: “a paz seja convosco; sou eu, não vos assusteis.” Vendo o assombro que se apoderou dos discípulos, o Mestre obtemperou: “Por que vos assusteis. Porque se elevam tantos pensamentos em seus corações?” Em seguida, para que eles se certificassem melhor de sua identidade, mostrou-lhes as chagas que tinha nas mãos e nos pés. Nesse evento, o apóstolo Tomé não estava presente, e, quanto ele voltou, surpreendeu-se, mas não deu crédito às informações dos demais apóstolos, adiantando que somente passaria a crer se visse nas suas mãos as marcas dos cravos e nelas pusesse a sua mão, bem como também no rasgão do seu lado.

Oito dias depois, Jesus se apresentou novamente entre eles, estando fechadas todas as portas. Dirigindo-se a Tomé, que então estava presente, disse-lhe o Espírito de Jesus: “Põe aqui o teu dedo e olha minhas mãos, estende também a tua mão e mete-a no meu lado.” Tomé num misto de alegria e surpresa, lhe respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” O Mestre então lhe disse: “Tu creste, Tomé, porque viste; ditosos os que creram sem ver.” (João 20:20-29)

Nova aparição aconteceu quando da pesca que Pedro, Tomé, João, Tiago Maior, Natanael e outros dois discípulos faziam no Mar de Tiberiades. Durante toda a noite, eles não haviam apanhado nenhum peixe. Logo ao amanhecer Jesus apareceu sem se dar a conhecer, recomendando-lhes que lançassem a rede do lado direito do barco. Eles a lançaram e logo quase não a puderam retirar, tão carregada estava de peixes. Nisso o apóstolo João reconheceu o Mestre e exclamou: “É o Senhor!” Ao ouvir essa palavra, Pedro, que estava nu, tomou de sua túnica e se atirou ao mar a fim de se encobrir.

O evangelista Lucas (24:50-53) afirmou que o espírito de Jesus tornou a aparecer em Bethsaida, onde abençoou os discípulos e deles se separou. Mateus por sua vez (28:16-20) legou a informação de que a última aparição de Jesus foi na Galiléia, no monte onde ele havia designado. Ali ele disse: “É me dado todo o poder no Céu e na Terra”, recomendando aos seus apóstolos que se encarregassem de difundir os ensinamentos evangélicos.

As aparições de Jesus não constituíram fatos miraculosos, pois, estão perfeitamente enquadrados nas leis da Natureza. Antes da morte na cruz, ele tinha um corpo carnal igual ao das demais criaturas humanas; após a sua morte, ele fez as várias aparições aos discípulos, apresentando-se com seu corpo perispiritico.

O iluminado Espírito de Emmanuel, analisando a questão da aparição do Espírito de Jesus à Madalena, explicou: “Por que razões profundas deixaria o Mestre tantas figuras mais próximas de sua vida, para surgir aos olhos de Maria Madalena em primeiro lugar? Somos naturalmente compelidos a indagar por que não teria aparecido antes, ao coração abnegado e amoroso que lhe servira de mãe ou aos discípulos amados? Entretanto, o gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência divina. Dentre os vultos da Boa Nova, ninguém fez tanta violência a si mesmo, para seguir o Redentor, como a inesquecível obsidiada de Magdal. Nem mesmo Paulo de Tarso faria tanto, mais tarde; porque a consciência do apóstolo dos gentios era apaixonada pela lei, mas não pelos vícios. Madalena, porém, conhecera o fundo amargo dos hábitos difíceis de serem extirpados, amoleceu-se ao contato de entidades perversas, permanecia “morta” nas sensações que operam a paralisia da alma.”

Afirmou Paulo de Tarso, em sua 1ª Espistola aos Corintios, que, após a chamada ressurreição, o Cristo foi visto por Pedro e depois pelos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos; depois foi visto por Tiago; depois, por todos os apóstolos, e, por derradeiro, de todos me apareceu também a mim, como um abortivo. (1ª Epistola aos Corintios – 15:5-8)

O livro dos Atos dos Apóstolos afirma que Jesus apareceu aos olhos de Anamias, instruindo-o para que procurasse Paulo de Tarso, na cidade de Damasco, e fizesse com que recuperasse a visão.  (Atos, 9:10-12)

Corroborando ter Jesus Cristo um corpo perispirítico, afirmou ainda o apóstolo Paulo em sua 1ª Epistola aos Corintios (1ª, Cor. 40-50): “Assim é a ressurreição: Há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres; semeia-se corpo animal e ressuscitará corpo espiritual; se há corpo animal há também o corpo espiritual; a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.

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