O destino dos médiuns que falharam…

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No quarto compartimento são punidos os impostores que se dedicaram à arte divinatória. Eles têm o rosto e o pescoço voltados para as costas, pelo que são obrigados a caminhar ao reverso. 1 (p. 95)

Isso porque suas cabeças encontram-se torcidas de modo que seus rostos ficam virados acima das costas. Tratam-se dos adivinhos. Em vida, tendo desejado olhar muito para o futuro, encontram-se condenados a olhar para trás eternamente. 2 (p. 158)

De imediato, fizemos um paralelo com o destino dos médiuns que falham…

Estudando nas obras basilares da Doutrina Espírita encontramos o material que se segue.

O capítulo V, do livro O Consolador, ditado por Emmanuel ao venerando Francisco Cândido Xavier, é dedicado à mediunidade. 3 (p. 213-230)

Um dos últimos itens é exatamente a Q 410: “O escolho da mediunidade”; ou seja, a dificuldade, o risco da mediunidade.

Emmanuel inicia-o dizendo que o primeiro inimigo do médium encontra-se dentro dele mesmo; pontuando que na maioria das vezes este adversário pode ser o seu personalismo, a sua ambição, a sua ignorância, ou a sua rebeldia em não querer assumir seus deveres, à luz do Evangelho; todos oriundos de fatores ligados a sua inferioridade moral. Elementos estes que, frequentemente, o levam à invigilância e à leviandade.

Como segundo inimigo, Emmanuel registra que reside dentro das próprias organizações espiritistas. Naquele indivíduo que, apesar de já acreditar nos fenômenos, ainda olvida a conversão do seu coração ao Evangelho; por isso, acaba introduzindo, nas fileiras Espíritas, “os seus caprichos pessoais, as suas paixões inferiores, tendencias nocivas, opiniões cristalizadas no endurecimento do coração, sem reconhecer a realidade de suas deficiências (…). Habituados ao estacionamento.” 3 (p. 227)

Na Q. 402, o egrégio Espírito pontua que, no exercício da mediunidade, não deve haver qualquer remuneração. Suas faculdades não devem se transformar em fonte de renda material. Tratar-se-ia de um comércio criminoso, que o levará a resgates pungentes, no futuro.

Em tempo, Emmanuel desaconselha a criação de associações de auxílio pecuniário aos médiuns (Q. 408). Fazê-lo seria o estabelecimento, mais uma vez no mundo, de uma nova classe sacerdotal.

Para o seu bem, afortunadamente, se assim podemos nos expressar, pode ocorrer a suspensão do seu dom mediúnico, para que não continue errando, aumentando seu passivo…

 A suspensão ou perda da faculdade, nestes casos, trata-se de um caso extremo de abuso persistente ou quando o médium coloca em risco sua própria vida ou a de outros; nestas situações, a espiritualidade pode, temporariamente, suspender ou, em raras ocasiões, retirar definitivamente, nesta reencarnação, a faculdade mediúnica.

O destino do médium que falha, portanto, está diretamente ligado ao mau uso, negligência ou recusa de utilizar a sua faculdade.

Todavia, o “fracasso” do médium não implica em condenação eterna, como o poeta florentino, Dante Alighieri, acreditava…

Ocorrem consequências, de acordo com a Lei de causa e efeito, mas, uma vez passados os resgates necessários, retoma sua jornada, nesta ou numa próxima reencarnação.

O médium que recebeu a faculdade mediúnica, deve conscientizar-se que assumiu uma grande responsabilidade; basta lembrar da parábola dos talentos… Se ele fizer mau uso dela, para fins egoístas, frívolos, financeiros ou mesmo por negligência, será “punido duplamente”, em relação àqueles que, embora tendo recebido o dom mediúnico, não tinham consciência desse meio evolutivo, de esclarecimento e prática do bem.

Na presente reencarnação, não ocorrendo o caso extremo da suspensão, os espíritos superiores afastar-se-ão do médium que desvirtuou o uso nobre de sua mediunidade. Isso costuma acontecer quando o médium não aproveita os reiterados conselhos recebidos, fazendo seus ouvidos moucos, ignorando deliberadamente, recusando-se a prestar atenção, e insiste em agir com orgulho, egoísmo, inveja ou cupidez.

Com o afastamento dos bons espíritos, o médium falhado fica muito vulnerável à influência de espíritos inferiores (ignorantes, zombeteiros, pseudo sábios, etc.), e, em casos extremos, à própria obsessão de espíritos mal-intencionados, na forma da fascinação ou mesmo subjugação.

Além disso, depois de passar pelos sofrimentos que o aguardam após a presente reencarnação, quando voltarem ao Mundo Espiritual, a falha no cumprimento do trabalho mediúnico, previamente acordado no programa reencarnatório, irá se traduzir em débitos espirituais que precisarão ser resgatados em reencarnações futuras; não poucas vezes, retornando com a mesma tarefa, porém, em condições muito mais desafiadoras.

Sobre o retorno ao Mundo Espiritual, vem a nossa lembrança uma passagem, para nós contundente, que se encontra na Coleção André Luiz.

Vejamos o seu registro deixado por André Luiz, em Obreiros da vida eterna. 4 (cap.8)

“— Espíritos do Bem, auxiliai-me! Eu conheci Bezerra de Menezes na Terra, aceitei o Espiritismo. No entanto, ai de mim! Minha crença não chegou a ser fé renovadora. Dedicava-me à consolação, mas fugia à responsabilidade! A morte atirou-me aqui, onde tenho sofrido bastante as consequências do meu relaxamento espiritual! Socorrei-me, por Jesus!” 4 (p. 130)

Um alerta para todos nós, Espíritas…

Quantos não são os que ostentam apenas um crachá, com os dizeres em letras garrafais: “Sou Espírita”; sem, contudo, realizarem obras no bem. 5 (p. 215)

Não foi à toa que o Nosso Senhor Jesus Cristo alertou: “A cada um segundo as suas obras”. Por isso, caros amigos leitores, ninguém acaba nos abismos, e nele permanece pelo tempo reparador necessário, sem razão de ser…

Antes de prosseguirmos, mister esclarecer que acabamos de descrever uma passagem que aconteceu na entrada de um dos abismos, na fronteira entre o Umbral Grosso e as Trevas e seus Abismos, com uma médium Espírita que faliu… 5 (p. 215)

Em suma, o destino do médium que optou por falhar não é uma punição arbitrária, uma vez que Deus não pune ninguém, mas, a consequência de suas próprias escolhas, fruto do mau emprego de seu livre arbítrio e do mau uso de uma ferramenta poderosa de progresso espiritual, a mediunidade. A prevenção, segundo o que nos ensina o Espiritismo, reside no estudo sério da Doutrina Espírita, no “conhece-te a ti mesmo”, na reforma íntima e, principalmente, na prática do bem.

Espero terem achado este tema reflexivo.

Fiquem com Deus.

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1 ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro. Ilustrada por Gustave Doré. São Paulo, SP: Edigraf, 1958.

2 ALIGHIERI, Dante. La Divina commedia. Edizione completa. Texto crítico de Giuseppe Vandelli. 16. ed. Milano, It: Ulrico Hoepli,1955 [A primeira edição foi em 1928].

3 XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 13. reimpr. Brasília: FEB, 2023. (confirmar numeração, quando chegar ao canto 20)

4 XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da vida eterna. Ditado pelo Espírito André Luiz. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1989.

5 DIONISI, Fabio A. R. O que está escondido nos grandes abismos? 1. ed. Ribeirão Pires, SP: Editora Dionisi, 2021.

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O autor é editor, articulista, escritor, palestrante, jornalista; responsável pelo CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br.

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