{"id":1437,"date":"2021-08-30T17:37:43","date_gmt":"2021-08-30T20:37:43","guid":{"rendered":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/?p=1437"},"modified":"2021-09-02T18:31:32","modified_gmt":"2021-09-02T21:31:32","slug":"a-doutrina-do-pecado-original","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/2021\/08\/30\/a-doutrina-do-pecado-original\/","title":{"rendered":"A Doutrina do Pecado Original"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"font-size:22px\">[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:24px\">Santo Agostinho foi defensor fervoroso deste dogma da Igreja Cat\u00f3lica Apost\u00f3lica Romana, tanto que inicia o livro XIII de A Cidade de Deus afirmando: \u201cProva-se nele que a morte dos homens \u00e9 castigo e se originou do pecado de Ad\u00e3o\u201d.1 (p. 91)<br>Inicialmente, contudo, procuremos entender por que a Igreja estabeleceu dogmas, quando Nosso Mestre Amado Jesus n\u00e3o o fez em vida.<br>No livro Cristianismo e Espiritismo, do mestre L\u00e9on Denis, encontraremos o apoio necess\u00e1rio.2 (p. 68a71)<br>\u201c(\u2026) depois da morte do Mestre, os primeiros crist\u00e3os possu\u00edam, em sua correspond\u00eancia com o mundo invis\u00edvel, abundante fonte de inspira\u00e7\u00f5es (\u2026). Mas as instru\u00e7\u00f5es dos Esp\u00edritos nem sempre estavam em harmonia com as opini\u00f5es do sacerd\u00f3cio nascente, que (\u2026) nelas muitas vezes encontrava tamb\u00e9m uma cr\u00edtica severa (\u2026). \u00c0 medida que se constitui a obra dogm\u00e1tica da Igreja, nos primeiros s\u00e9culos, os Esp\u00edritos afastam-se pouco a pouco dos crist\u00e3os ortodoxos, para inspirar os que eram ent\u00e3o designados sob o nome de heresiarcas (\u2026). Desde o s\u00e9culo III, afirmavam [os Esp\u00edritos] que os dogmas impostos pela Igreja (\u2026) n\u00e3o eram mais que um obscurecimento do pensamento do Cristo. Combatiam [tamb\u00e9m] os faustos j\u00e1 excessivos e escandalosos dos bispos (\u2026). Essa oposi\u00e7\u00e3o crescente tornava-se intoler\u00e1vel aos olhos da Igreja. Os \u2018heresiarcas\u2019, aconselhados e dirigidos pelos Esp\u00edritos, (\u2026) interpretavam o Evangelho com amplitude de vistas que a Igreja n\u00e3o podia admitir, sem cavar a ru\u00edna dos seus interesses materiais. Quase todos [os heresiarcas] se tornavam neoplat\u00f4nicos, aceitando a sucess\u00e3o das vidas do homem (\u2026), puni\u00e7\u00f5es proporcionais \u00e0s faltas da alma, reencarnada em novos corpos para resgatar o passado e purificar-se pela dor (\u2026). Essa doutrina de esperan\u00e7a e de progresso n\u00e3o inspirava, aos olhos dos chefes da Igreja, o suficiente terror da morte e do pecado. N\u00e3o permitia firmar sobre bases convenientemente s\u00f3lidas a autoridade do sacerd\u00f3cio. O homem, podendo resgatar-se a si pr\u00f3prio das suas faltas, n\u00e3o necessitava do padre. O dom de profecia, a comunica\u00e7\u00e3o constante com os Esp\u00edritos, eram for\u00e7as que (\u2026) minavam o poder da Igreja. Esta, assustada, resolveu p\u00f4r termo \u00e0 luta, sufocando o profetismo. Imp\u00f4s sil\u00eancio a todos (\u2026). Depois de ter, durante tr\u00eas s\u00e9culos, reconhecido no dom de profecia (\u2026) a Igreja chegou a declarar que tudo o que provinha dessa fonte n\u00e3o era mais que pura ilus\u00e3o ou obra do dem\u00f4nio. Ela se declarou (\u2026) a \u00fanica profecia viva, a \u00fanica revela\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua e permanente. (\u2026) Os profetas eram <a href=\"\u2026\">passaram a ser<\/a> \u2018o bispo e o padre que julgavam, pelo dom do discernimento e as regras da Escritura, se o que fora dito provinha do esp\u00edrito de Deus ou do esp\u00edrito do dem\u00f4nio\u2019 (\u2026). Mas os homens desinteressados, que amavam a verdade pela verdade, n\u00e3o eram bastante numerosos nos conc\u00edlios. Doutrinas, que melhor se adaptavam aos interesses terrenos da Igreja, foram elaboradas por essas c\u00e9lebres assembleias, que n\u00e3o cessaram de imobilizar e materializar a Religi\u00e3o (\u2026). Essa pesada constru\u00e7\u00e3o (\u2026) surgiu na Terra em 325 com o conc\u00edlio de Nic\u00e9ia, e foi conclu\u00edda em 1870 com o \u00faltimo conc\u00edlio de Roma. Tem por alicerce o pecado original e por coroamento a imaculada concei\u00e7\u00e3o e a infalibilidade papal.\u201d<br>Agora sim podemos entrar na quest\u00e3o equivocada do pecado original; um dos mais importantes dogmas adotados pela Igreja.<br>L\u00e9on Denis credita ao dogma do pecado original todo o edif\u00edcio constru\u00eddo pela Igreja para o exerc\u00edcio de seu poder temporal.<br>\u201cO pecado original \u00e9 o dogma fundamental em que repousa todo o edif\u00edcio dos dogmas crist\u00e3os (\u2026). O pecado original, que pune toda a posteridade de Ad\u00e3o, isto \u00e9, a Humanidade inteira, pela desobedi\u00eancia do primeiro par, para depois salv\u00e1-la por meio de uma iniquidade inda maior &#8211; a imola\u00e7\u00e3o de um justo &#8211; \u00e9 um ultraje \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 moral (\u2026).\u201d2 (p. 80)<br>Como o homem conserva, intuitivamente, a ideia de que sofre na presente encarna\u00e7\u00e3o pelas faltas cometidas em outras precedentes, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compreender porque essa concep\u00e7\u00e3o do \u201cpecado original\u201d, e da consequente expia\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, est\u00e1 presente em muitas cren\u00e7as.<br>A Igreja aproveitou-se disso para criar todos os demais preceitos, embora em contradi\u00e7\u00e3o com a infinita bondade e perfeita justi\u00e7a do Pai, com vistas a estabelecer a sua autoridade.<br>\u201cDessa concep\u00e7\u00e3o err\u00f4nea derivam as da queda, do resgate e da reden\u00e7\u00e3o pelo sangue do Cristo, os mist\u00e9rios da encarna\u00e7\u00e3o [ressurei\u00e7\u00e3o], da virgem m\u00e3e, da imaculada concei\u00e7\u00e3o (\u2026).\u201d2 (p. 80-81)<br>Constru\u00e7\u00e3o na qual Agostinho dedicou muito esfor\u00e7o, embora revestido das melhores inten\u00e7\u00f5es, uma vez que n\u00e3o compartilhava com o desejo de domina\u00e7\u00e3o que ent\u00e3o a Igreja buscava.<br>E \u00e9 mister registrar que o Hiponense s\u00f3 desejava a nossa salva\u00e7\u00e3o. Aquela mesmo que ele perseguiu aguerridamente. Ali\u00e1s, exemplo que urge seguirmos tamb\u00e9m\u2026<br>Portanto, podemos afirmar que o Cristianismo repousou, por quase dois mil\u00eanios, sob dois pontos capitais: o da queda da humanidade terrestre, com o equ\u00edvoco de Ad\u00e3o e Eva, e da necessidade desta repara\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da imola\u00e7\u00e3o de um anjo, o Nosso Senhor Jesus Cristo.<br>Segundo a Igreja, Sua morte foi necess\u00e1ria para salvar os seres humanos desse \u201cpecado de origem\u201d, que seria cong\u00eanito e heredit\u00e1rio, isto \u00e9, inato e passaria de uma gera\u00e7\u00e3o para outra.<br>\u201cSem o dogma do pecado original n\u00e3o mais se concebe a necessidade do Redentor. Por isso, nada \u00e9 ensinado mais explicitamente pela Igreja do que a queda de Ad\u00e3o e as suas funestas consequ\u00eancias, para todos os seus descendentes.\u201d2 (p. 81)<br>E porque \u00e9 t\u00e3o importante que o n\u00f3 seja desfeito?<br>Porque o dogma do pecado original diminui o poder supremo do Pai. Como pode um Ser perfeito condenar a humanidade terrestre por um erro cometido por um \u00fanico casal? E, em adi\u00e7\u00e3o, sentenciar seu filho ungido ao sofrimento hediondo de uma flagela\u00e7\u00e3o e crucifica\u00e7\u00e3o?<br>Al\u00e9m disso, com o pecado original e a necessidade da reden\u00e7\u00e3o, por meio da imola\u00e7\u00e3o do Cristo, ca\u00edmos na Doutrina da Gra\u00e7a.<br>Este dogma, cujo art\u00edfice foi Agostinho, destinado a combater os maniqueus, partid\u00e1rios da doutrina de dois princ\u00edpios opostos igualmente fortes: o bem e o mal, e os seguidores de Pel\u00e1gio que proclamavam que o homem podia se salvar por si s\u00f3, levou-nos \u00e0 necessidade de Deus para nos salvar.<br>E como a Igreja impunha o \u201cfora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o\u201d, seus seguidores ficavam irremediavelmente dependentes desta para poderem alcan\u00e7ar o Reino de Deus.<br>\u201cSegundo S. Paulo, cuja teoria foi adotada sucessivamente por Agostinho, pelos reformadores do s\u00e9culo XVI (\u2026), o homem n\u00e3o pode obter a salva\u00e7\u00e3o por suas pr\u00f3prias obras, arrastando-o sua natureza (\u2026) ao mal. Essa inclina\u00e7\u00e3o funesta \u00e9 o resultado da queda do primeiro homem (\u2026), tendo-se tornado a heran\u00e7a de todos os filhos de Ad\u00e3o. \u00c9 pela concep\u00e7\u00e3o que aos filhos se transmite o pecado dos pais (\u2026). Todos os homens (\u2026) seriam votados \u00e0 condena\u00e7\u00e3o eterna, se Deus, em sua miseric\u00f3rdia, n\u00e3o tivesse encontrado um meio de os salvar. Esse meio \u00e9 a reden\u00e7\u00e3o. O filho de Deus (\u2026) cumpriu a vontade do Pai (\u2026) oferecendo-se em holocausto para salva\u00e7\u00e3o de todos os que se ligam \u00e0 sua igreja. Desse dogma resulta que os fi\u00e9is n\u00e3o s\u00e3o salvos por um exerc\u00edcio da sua livre vontade, nem por seus pr\u00f3prios merecimentos (\u2026), mas por efeito de uma gra\u00e7a que Deus concede a seus eleitos. (\u2026) poder-se-ia dizer: \u00c9 Deus quem atrai os escolhidos e quem endurece os pecadores. Tudo se faz pela predestina\u00e7\u00e3o divina. Ad\u00e3o, por conseguinte, n\u00e3o pecou por seu livre-arb\u00edtrio. Foi Deus, absoluto soberano, que o predestinou \u00e0 queda.\u201d2 (p. 82-83)<br>Adicionalmente, como os pecados cometidos em vida, posteriores ao nascimento, s\u00f3 podem ser absolvidos atrav\u00e9s dos sacramentos da Eucaristia e da Extrema-Un\u00e7\u00e3o, a salva\u00e7\u00e3o do ser humano depende sempre da Igreja\u2026 Enfim, sujeita a uma delibera\u00e7\u00e3o que somente seus padres e bispos podem conceder, ou n\u00e3o.<br>E, depois outorgamos \u00e0 Niccol\u00f2 Machiavelli (1469-1527) o epit\u00e1fio de maquiav\u00e9lico\u2026<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:22px\">1 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. 12. ed. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, S\u00e3o Paulo: Federa\u00e7\u00e3o Agostiniana Brasileira, 2009.<br>2 DENIS, L\u00e9on. Cristianismo e Espiritismo. 8. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1919.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br Santo Agostinho foi defensor fervoroso deste dogma da Igreja Cat\u00f3lica Apost\u00f3lica Romana, tanto que inicia o livro<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1439,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27,6],"tags":[],"class_list":["post-1437","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1437"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1437\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1438,"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1437\/revisions\/1438"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1439"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}