{"id":2106,"date":"2023-07-29T13:58:10","date_gmt":"2023-07-29T16:58:10","guid":{"rendered":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/?p=2106"},"modified":"2023-07-29T14:12:15","modified_gmt":"2023-07-29T17:12:15","slug":"autoconhecimento-e-reforma-intima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoradionisi.com.br\/folhaespiritacairbarschutel\/2023\/07\/29\/autoconhecimento-e-reforma-intima\/","title":{"rendered":"Autoconhecimento e reforma \u00edntima"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">[Fabio A. R. Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">[Artigo publicado na RIE &#8211; Revista Internacional de Espiritismo, em 2018.]<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:24px\">Caro leitor, confessamos que nos fascina a din\u00e2mica da convers\u00e3o de Santo Agostinho; e, mais especificamente, pelo momento de sua \u201cgrande virada\u201d, quando decidiu sobrepujar, definitivamente, todos os v\u00edcios que at\u00e9 ent\u00e3o o fizeram viver uma vida devassa.<br>Este momento, t\u00e3o determinante, est\u00e1 descrito em seu livro Confiss\u00f5es, quando, de repente, ouve uma voz a lhe repetir: <em>\u201cTolle, lege; toma, l\u00ea\u201d<\/em>. Segundo ele, n\u00e3o proveniente de um ser vis\u00edvel, convence-se de que se tratava de uma ordem de Deus, determinando-lhe que abrisse ao acaso as Sagradas Escrituras, e que lesse a primeira passagem que sob os olhos lhe ca\u00edsse. Como fazemos quando realizamos o Evangelho no Lar, uma pr\u00e1tica Esp\u00edrita, mas que \u00e9 recomend\u00e1vel para todos, independentemente do credo professado\u2026<br>No caso dele, coube-lhe uma das cartas de Paulo, o Ap\u00f3stolo dos Gentios; e, dessa leitura, n\u00e3o teve mais d\u00favidas sobre o que devia fazer\u2026<br><em>\u201cN\u00e3o caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em contendas e rixas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e n\u00e3o procureis a sa-tisfa\u00e7\u00e3o da carne com seus apetites.\u201d<\/em> (Carta aos Romanos, 13:13-14)<br>Imediatamente, ap\u00f3s a leitura dessa passagem, Agostinho toma uma posi\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica a respeito de sua vida. Nas suas palavras: <em>\u201cN\u00e3o quis ler mais, nem era necess\u00e1rio. Apenas acabei de ler estas frases, penetrou-me no cora\u00e7\u00e3o uma esp\u00e9cie de luz serena, e todas as trevas da d\u00favida fugiram.\u201d <\/em>(Confiss\u00f5es; cap. 8; item 12)<br>A partir da\u00ed transformou-se numa pessoa em permanente batalha contra suas fraquezas, at\u00e9 o ano de seu decesso (430 d.C.), na pequena cidade portu\u00e1ria de Hipona.<br>Curiosamente, muitos s\u00e9culos depois o encontrar\u00edamos, agora desencarnado, novamente relatando sua constante busca pela melhoria, e da forma como lograva realiz\u00e1-la:<em> \u201cQ. 919. Qual o meio pr\u00e1tico mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir \u00e0 atra\u00e7\u00e3o do mal? \u2014 Um s\u00e1bio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo. (\u2026) Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consci\u00eancia, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se n\u00e3o faltara a algum dever, se ningu\u00e9m tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma (\u2026). O conhecimento de si mesmo \u00e9, portanto, a chave do progresso individual (\u2026).\u201d<\/em> (O Livro dos Esp\u00edritos)<br>Mas n\u00e3o foi algo que surgiu do nada, nem do acaso\u2026<br>A busca do conhecimento e da verdade s\u00e3o duas cons-tantes no homem. Compelido a tal, ou porque \u00e9 impulsionado pela Lei Divina do Progresso, uma das leis depositadas pelo Pai, por ocasi\u00e3o da sua cria\u00e7\u00e3o, ou porque o homem sabe, mesmo que inconscientemente ainda, sobre: o seu Criador, sua cria\u00e7\u00e3o, seus prop\u00f3sitos, o destino que o espera, e de uma s\u00e9rie de outras informa\u00e7\u00f5es, as quais teve acesso nas suas in\u00fameras reencarna\u00e7\u00f5es e exist\u00eancias no plano espiritual.<br>O homem cogita, e quem pensa, questiona, quer saber, e quer saber certo. Enfim, busca o conhecimento e a verdade.<br>Indelevelmente registrado no Esp\u00edrito, a ess\u00eancia criada por Deus, a centelha divina, esse conhecimento encontra-se a espera que seja acessado.<br>Nos primeiros est\u00e1gios de sua jornada, obcecado pela necessidade de atender suas necessidades, unicamente guiado pelos instintos de sobreviv\u00eancia pessoal e da esp\u00e9cie (instinto de reprodu\u00e7\u00e3o), caminha sem no\u00e7\u00e3o, sem atentar para aquilo que \u00e9 realmente importante em sua vida; a raz\u00e3o de ser de sua exist\u00eancia.<br>O apego \u00e0s coisas da mat\u00e9ria, a gratifica\u00e7\u00e3o dos sentidos que se obt\u00eam no atendimento das suas necessidades prementes, os prazeres que os mesmos lhes proporcionam, \u2014 ali\u00e1s, parte do mecanismo necess\u00e1rio para sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, pois se n\u00e3o houvesse o prazer, n\u00e3o haveria a procura pela sua satisfa\u00e7\u00e3o \u2014, e que, embora ef\u00eameros e fugazes, obliteram a busca pelos verdadeiros valores e necessidades da vida do Esp\u00edrito.<br>Todavia, um dia a satura\u00e7\u00e3o chega. Esgotado de sofrer tantas dores e desilus\u00f5es, pre\u00e7o que paga pelo atendimento a esses prazeres, acorda o Esp\u00edrito para a sua realidade verdadeira. Segundo L\u00e9on Denis, surge a necessidade de se obter resposta \u00e0s quest\u00f5es b\u00e1sicas sobre o problema do ser, do destino e da dor.<br>Cansado da escravid\u00e3o sufocante que a mat\u00e9ria imp\u00f5e, pois ela d\u00e1 bastante, mas muito pede em troca, enfim exausto, sem conseguir controlar seu destino, entediado das quimeras a consumi-lo, mas que nunca lhe d\u00e3o o retorno esperado, o que \u00e9 agora compreens\u00edvel, pois o esp\u00edrito foi criado para outros fins, entra em choque com a vida que n\u00e3o mais faz sentido.<br>Vivendo desconectado de sua ess\u00eancia verdadeira, sua alma reclama. Surge ent\u00e3o o basta, a convers\u00e3o, o despertamento para a busca daquilo que realmente pode satisfaz\u00ea-lo.<br>Num primeiro momento, inicia sua busca no exterior, pois assim est\u00e1 habituado a faz\u00ea-lo; mas, logo descobre que, antes de mais nada, precisa encontrar-se, atrav\u00e9s do seu autoconhecimento.<br>Melhorar-se o reconduz a estrada que precisa trilhar; por\u00e9m, para reformar-se, precisa identificar seus defeitos. E conhecer, tamb\u00e9m, os motivadores dos mesmos\u2026<br>Sem identificar os m\u00f3veis que o leva ao seus pensamentos, sentimentos, emo\u00e7\u00f5es, vontades e a\u00e7\u00f5es, torna-se dif\u00edcil alterar a rota, desapegar dos valores e cren\u00e7as do passado, superar o dom\u00ednio que a mat\u00e9ria tem sobre ele; com vistas a come\u00e7ar a viver livre e em busca de um novo patamar; retornando, em dire\u00e7\u00e3o, ao plano para o qual foi criado!<br>Aurelius Augustinus enfrentou essas quest\u00f5es, como muitos j\u00e1 enfrentaram, e como todos enfrentar\u00e3o no seu dia \u201cD\u201d.<br>Com o seu <em>\u201ctoma e l\u00ea\u201d<\/em>, chegara a sua hora. Era preciso estancar o mal interior, era necess\u00e1rio plantar o bem dentro de si.<br>Para chegar a isso, estuda, reflete e chega \u00e0 conclus\u00e3o de que o meio mais eficaz para se melhorar \u00e9 se conhecendo.<br><em>\u201cUm s\u00e1bio da antiguidade vos disse: Conhece-te a ti mesmo\u201d<\/em> (aforismo inscrito no or\u00e1culo de Delfos).<br>Enfim, Santo Agostinho encontra, na filosofia grega, o apoio para sua jornada.<br>Oito s\u00e9culos antes, S\u00f3crates j\u00e1 havia dito que o autoexame \u00e9 a melhor maneira para o aperfei\u00e7oar-se. Reencontro este que torna poss\u00edvel o renascer da pr\u00f3pria consci\u00eancia, e, como consequ\u00eancia, a autoliberta\u00e7\u00e3o.<br>Inicialmente, Agostinho buscou o entendimento da distin\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal, atrav\u00e9s da an\u00e1lise da realidade externa, para depois voltar-se para o seu interior. Em outros termos, primeiro o progresso intelectual, que d\u00e1 o entendimento da distin\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal; e, com esta compreens\u00e3o, mais o bom uso do livre-arb\u00edtrio, a busca do progresso moral.<br>Ali\u00e1s, muito semelhante a din\u00e2mica proposta por S\u00f3crates: (a) Conceito, (b) Ironia (ou arte da interroga\u00e7\u00e3o), (c) mai\u00eautica (processo dial\u00e9tico que traz \u00e0 luz a interioridade do ser, com a finalidade de se atingir o autoconhecimento).<br>Num primeiro est\u00e1gio, S\u00f3crates buscava que seu disc\u00edpulo dissipasse todas as ilus\u00f5es que tivesse sobre o mundo e sobre si mesmo; para isso, se utilizava da arte da interroga\u00e7\u00e3o. Fazer perguntas sobre perguntas, at\u00e9 que o ser se conscientize dos elementos motivadores que falamos h\u00e1 pouco.<br>Uma vez posto \u00e0 luz o verdadeiro \u00edntimo do disc\u00edpulo, isto \u00e9, a descoberto suas vaidades, v\u00edcios, etc., coloca-lo, numa segunda etapa, no caminho do burilamento interior.<br>Conhecer-se para reformar-se.<br>Se S\u00f3crates trouxe um m\u00e9todo de autoconhecimento, j\u00e1 Agostinho foi quem na verdade explorou essa busca de interioridade e a exemplificou em si mesmo, pois sempre procurou mergulhar dentro de si e conscientizar-se de seus erros e defeitos, conforme exp\u00f5e de forma aut\u00eantica em Confiss\u00f5es.<br>De Agostinho encontramos:<em> \u201cQuero recordar as minhas torpezas passadas, as corrup\u00e7\u00f5es de minha alma, n\u00e3o porque as ame, ao contr\u00e1rio, para te amar, \u00f3 meu Deus. \u00c9 por amor do teu amor que retorno ao passado, percorrendo os antigos caminhos dos meus graves erros.\u201d<\/em> (Confiss\u00f5es; lv. II; it. 1)<br>Passo a passo, seguindo o roteiro sempre atual para o processo da reforma \u00edntima: olhar para dentro de si; encarar e aceitar os pr\u00f3prios erros e falhas; aceitar-se como falho, sem punir-se; para, por fim, mudar o que tem que ser mudado.<br>N\u00e3o disse Jesus: <em>\u201cConhecereis a verdade, e a verdade vos libertar\u00e1\u201d<\/em>?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Fabio A. R. 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