EDITORIAL No 139 (Setembro, 2025) – “O amor cobrirá a multidão dos pecados… (1 Pe, 4:8)”

Editor responsável: Fabio Dionisi
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br

______________________________________________________________________________

Caros todos, é muito comum ouvirmos nossos confrades e confreiras falarem dos resgates, na forma de provas e expiações, como se fossem a única forma possível de reajuste com as Leis Divinas.

Criou-se uma verdadeira panaceia em torno do sofrimento, como o derradeiro caminho para a redenção de nossas faltas.

É certo que a dor pode ser a mestra por excelência para nosso desenvolvimento, tanto intelectual quanto moral; mas, não podemos olvidar que é igualmente certo que existem duas maneiras para voltarmos a nos harmonizar com a Lei: (a) provas e expiações (dor) ou (b) por meio do amor (caridade).

Isso mesmo, a Misericórdia Divina pode dispensar da Lei, conforme a conduta do Espírito encarnado, quando o homem já demonstre expressões do “amor que cobre a multidão dos pecados”

Mas parece que teimamos em admitir somente a primeira; embora, desde a introdução da Codificação Espírita, muito tem sido escrito a respeito desta segunda forma.

Outro dia, pensando a respeito, ficamos curiosos em saber se somente com o advento da Terceira Revelação o homem “descobriu” a via do amor.

Sem delongas, fomos verificar se na revelação anterior Jesus já nos houvera instruído a respeito.

Nossa primeira constatação positiva veio através da Primeira Epístola do Apóstolo Simão Pedro, onde encontramos, curiosamente, a frase acima citada: “mas, sobretudo, tende ardente caridade uns para com os outros, porque a caridade cobrirá a multidão dos pecados”.1 (1Pe, 4:8) (os negritos são nossos)

Trata-se de um verdadeiro incentivo a esperança e a fé, para todos aqueles que erraram, uma vez que nos explica que não é somente através das provas e expiações (dores) que resgatamos nossas faltas pretéritas, como comumente é interpretada a Lei da Ação e Reação(a), por muitos espiritualistas e Espíritas.

Simão Barjonas, mesmo sem ser Espírita, já compreendera que a caridade, isto é, a prática do amor, é capaz de “cobrir a multidão dos [nossos] pecados”. E, não deveríamos estranhar este fato, pois também constatamos que o Nosso Senhor Jesus Cristo já houvera passado esta fórmula há dois mil anos, por ocasião de sua passagem aqui neste orbe.

Para citar um exemplo, podemos encontrá-la na oração que Ele nos deixou, o Pai Nosso; no seguinte trecho: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como também perdoamos aos nossos devedores”.

Caro leitor, todos sabemos, por experiência própria, que perdoar é uma das caridades mais difíceis de ser executada… Mas, muitas vezes nos esquecemos de que se lograrmos realizá-lo talvez o Nosso Criador nos conceda o perdão para os nossos erros; se assim Ele achar que seja conveniente, uma vez que o Pai só nos contempla com o que nos é adequado…

Outra passagem pode ser encontrada no capítulo 20 do Evangelho segundo João: “Se perdoardes os pecados de alguns, {os pecados} lhes são perdoados; se retiverdes de alguns, estão retidos.”2 (Jo, 20:23)

E mesmo que não fossemos proficientes nos documentos considerados no cânone(b), porque a surpresa para tantos Espíritas?

Só para pegarmos uma das centenas de obras Espíritas, de qualidade confiável, tomemos o livro Ação e Reação, ditado pelo Espírito de André Luiz, ao médium Francisco Cândido Xavier. Lá encontraremos farto material, embora, mais especificamente nos concentraremos no capítulo 16: Débito aliviado.

“– Ainda pela utilidade que sabe imprimir aos seus dias, Adelino mereceu a limitação da enfermidade congenial de que é portador. Tendo sofrido, por longo tempo, o trauma perispirítico do remorso, por haver incendiado o corpo do próprio pai [em encarnação anterior], nutriu em si mesmo estranhas labaredas mentais que, como já lhes disse, o castigaram intensamente além-túmulo… Renasceu, por isso, com a epiderme atormentada por vibrações calcinantes que, desde cedo, se lhe expressaram na nova forma física por eczema de mau caráter… Semelhante moléstia, em face da dívida em que se empenhou, deveria cobrir-lhe todo o corpo, durante muitos e angustiosos lustros de sofrimento, mas, pelos méritos que ele vai adquirindo [trabalhando em benefício do próximo, na seara Espírita], a enfermidade não tomou proporções que o impeçam de aprender e trabalhar, porquanto granjeou a ventura de continuar a servir, pelo seu impulso espontâneo na plantação constante do bem. (…)

De volta à Mansão, prosseguiu nosso amável mentor tecendo brilhantes comentários em torno do “amor que cobre a multidão dos pecados”, como ensinou o Apóstolo [Simão Pedro] (…).”

Mas a história que mais nos impressiona, e desejamos compartilhar com o nosso amigo leitor, trata-se de um irmão, em Cristo, que retornou ao mundo terrestre, programado para perder um braço numa máquina operatriz; contudo, por sua atuação no bem, praticando a caridade para o próximo, sua pena foi comutada para a perda de um simples dedo…

Mais um motivo para pensarmos com muito carinho sobre a prática do bem… Obviamente não por interesse, mas como forma de anularmos os resgates programados que até desconhecemos (por não lembrarmos…).

Fiquem na PAZ que o Cristo de Deus nos deixou!

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Eu não vos dou como o mundo {a} dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize.”2 (Jo, 14:27)

___________________________________________________________________________

(a) Lei da Ação e Reação (Lei de Causa e Efeito)

O castigo, no sentido etimológico da palavra, não existe. Deus não pune ninguém! Tudo não é mais do que o restabelecimento do equilíbrio. A Lei da Ação e Reação é uma Lei Divina que nos reconduz ao equilíbrio que destruímos.

Pode ser explicada e chamada de várias formas, mas no fundo trata-se sempre da mesma coisa: colhemos de acordo com a semeadura. Se semearmos boas sementes, a colheita será farta e abundante, porém, se semearmos sementes ruins, não colheremos boas coisas…

(b) Na acepção da palavra, Cânone designa a lista dos escritos ou livros considerados pela maioria das igrejas decorrentes do Cristianismo como tendo evidências de Inspiração Divina. São aceitos como tais pelas igrejas católica, ortodoxa, protestantes e evangélicas.

Ao que sabemos, a definição do cânon do Novo Testamento começou em c. 150 d.C. Na forma em que se encontra hoje, a primeira vez que aparece documentado foi em uma carta de Atanásio, bispo de Alexandria, em 367 d.C. Este cânon foi ratificado no terceiro Sínodo de Cartago, em 397 d.C., embora já fosse aceito como tal já no Sínodo de Hipona Regia, realizado em 393 d.C.

______________________________________________________________________________

1 Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.

2 O novo testamento. Tradutor Haroldo Dutra Dias. Revisor Cleber Varandas de Lima. Brasília (DF): Conselho Espírita Internacional, 2010.

3 XAVIER, Francisco Cândido. Ação e reação. Ditado pelo Espírito André Luiz. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

______________________________________________________________________________

O autor é editor, articulista, escritor, palestrante, jornalista; responsável pelo CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *