EDITORIAL No 148 (Junho, 2026) – “E quanto ao tema das evocações?”

Editor responsável: Fabio Dionisi
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br

_____________________________________________________________________

Não faz muito tempo que um confrade nos perguntou por que as evocações não são mais uma prática comum. Segundo ele, não há nada de mal em fazê-las, e por isso não deveriam ser abandonadas em nossas reuniões, propondo mesmo que fossem retomadas. Na época fomos contrários, mas confessamos que não demos maior atenção a respeito.

Curiosamente, por motivos outros, nos deparamos com o assunto alguns meses depois.

E é exatamente isso que queremos compartilhar hoje com nossos caros leitores.

Originalmente, Kardec foi o primeiro a desenvolver o tema, tanto que dedicou um capítulo inteiro em O Livro dos Médiuns.1 Onde trata de quais Espíritos podem ser evocados, que tipo de linguagem deve ser usada, da utilidade das evocações particulares, das evocações de encarnados, etc.

Mas se foi uma prática comum naqueles tempos, acreditamos que hoje em dia devam ser evitadas.

Por que esta nossa posição? Porque não somos favoráveis às evocações. Preferimos que as manifestações ocorram de forma espontânea.

Não que elas devam ser proibidas. Isso não! Pois seria interferir no livre-arbítrio das pessoas. E se Deus o respeita, quem somos nós para não fazê-lo também…

Como generalizar é problemático, precisamos considerar que existam situações em que se façam necessárias, como, por exemplo, durante um trabalho de desobsessão, ou quando, como dirigentes de uma instituição Espírita, buscamos a orientação do seu Espírito coordenador.

Todavia, precisamos ponderar antes de fazê-las.

Para começar, existem dois problemas complexos a serem superados:

  • Ter a certeza de que o Espírito que se apresenta é realmente aquele que foi evocado;
  • A prática, muito comum, de se usar destas comunicações para fins exclusivamente pessoais.

Ademais, se na época da Codificação elas foram importantes, não o são mais nos dias atuais. Naquele século, os Espíritos lideravam ou participavam de sua elaboração; por este motivo, de acordo com a expertise necessária, ou da experiência que se queria capturar, buscava-se o desencarnado mais adequado ao estudo em curso.

Mas este tempo passou. Se o trabalho de estudo era o foco naquela época, agora a nossa evolução moral deve ser objeto das nossas atenções.

A bem da verdade, é mister não olvidar de que Allan Kardec também discutiu este assunto: comunicações espontâneas e evocações. E, embora tenha mantido uma posição assaz neutra a respeito, cuidou de expor suas dificuldades.

“Q.269. Os Espíritos podem comunicar-se espontaneamente, ou acudir ao nosso chamado, isto é, vir por evocação. Pensam algumas pessoas que todos devem abster-se de evocar tal ou tal Espírito e ser preferível que se espere aquele que queira comunicar-se.

Fundam-se em que, chamando determinado Espírito, não podemos ter a certeza de ser ele quem se apresente, ao passo que aquele que vem espontaneamente, (…) melhor prova a sua identidade, pois que manifesta assim o desejo que tem de se entreter conosco. Em nossa opinião, isso é um erro: primeiramente, porque há sempre ao redor de nós Espíritos, as mais das vezes de condição inferior, que outra coisa não querem senão comunicar-se; em segundo lugar e mesmo por esta última razão, não chamar a nenhum em particular é abrir a porta a todos os que queiram entrar. (…)

A chamada direta de determinado Espírito constitui um laço entre ele e nós; chamamo-lo pelo nosso desejo e opomos assim uma espécie de barreira aos intrusos. Sem uma chamada direta, um Espírito nenhum motivo terá muitas vezes para vir confabular conosco (…).

Cada uma destas duas maneiras de operar tem suas vantagens e haveria inconveniente apenas se excluíssemos qualquer uma delas. As comunicações espontâneas inconveniente nenhum apresentam, quando se está senhor dos Espíritos e certo de não deixar que os maus tomem a dianteira. Então, é quase sempre bom aguardar a boa-vontade dos que se disponham a comunicar-se, porque nenhum constrangimento sofre o pensamento deles e dessa maneira se podem obter coisas admiráveis; entretanto, pode suceder que o Espírito por quem se chama não esteja disposto a falar, ou não seja capaz de fazê-lo no sentido desejado. O exame escrupuloso, que temos aconselhado, é, aliás, uma garantia contra as comunicações más. Nas reuniões regulares, naquelas, sobretudo, em que se faz um trabalho continuado, há sempre Espíritos habituais que a elas comparecem, sem que sejam chamados (…). Tomam, então, frequentemente a palavra, de modo espontâneo, para tratar de um assunto qualquer, desenvolver uma proposição ou prescrever o que se deva fazer, caso em que são facilmente reconhecíveis, quer pela forma da linguagem, que é sempre idêntica, quer pela escrita, quer por certos hábitos que lhes são peculiares. (…)”.1

Quanto ao nosso parecer, a mesma linha de pensamento é compartilhada pela equipe do Projeto Manoel Philomeno de Miranda, e que está narrada em: Estudando O Livro dos Médiuns.2

A bem da verdade, não é só deles, mas a de Espíritos de escol como Emmanuel.

“Q. 369 É aconselhável a evocação direta de determinados Espíritos?

— Não somos dos que aconselham a evocação direta e pessoal, em caso algum.

Se essa evocação é passível de êxito, sua exequibilidade somente pode ser examinada no plano espiritual. Daí a necessidade de sermos espontâneos (…).

Podereis objetar que Allan Kardec se interessou pela evocação direta, procedendo a realizações dessa natureza, mas precisamos ponderar, no seu esforço, a tarefa excepcional do Codificador (…).”3 (p. 207)

Mas voltemos à equipe do Projeto.

No capítulo 7, eles fazem uma análise das reflexões de Kardec, a respeito das vantagens e dos escolhos nas evocações diretas. Relembram que o maior causador do insucesso é a falta de competência e de evolução moral de quem o faz. Kardec podia se dar ao luxo disso, pelo grau de elevação que já atingira, mas quem mais possui tais credenciais? São muito poucos, certamente…

Ponderam que, se é difícil ter a certeza quanto à identificação do Espírito evocado, seguramente também o de quem espontaneamente vem até nós.

Quanto as principais restrições, sempre se baseando no que Allan Kardec alertou, conquanto o mestre reconhecesse a importância das evocações para as pesquisas em curso, a equipe lista:2 (p. 77-79)

  • Os médiuns são geralmente muito mais procurados para as evocações de interesse particular, do que para comunicações de interesse geral;
  • No item 2721, ele [Kardec] assevera que as evocações frequentemente oferecem mais dificuldade aos médiuns do que os ditados espontâneos (…);
  • No item 2821, desaconselha os médiuns novatos fazeram-nas, principalmente quando isolados;
  • No item 2771, Allan Kardec adverte quanto a certas nuanças importantes da questão, entre as quais a não obrigatoriedade de o Espírito evocado vir às reuniões.

Quanto a este último, Kardec nos aconselhou que se perguntasse aos guias espirituais se a evocação é possível. Ao que a equipe conclui: “Vejam o cuidado! Ora somente os guias sabem se a evocação é conveniente, se o Espírito pode ou quer vir, se o evocador está em condições de conduzir a experiência com êxito, etc.”2 (p. 79)

Na verdade, precisamos, e é salutar fazê-lo, consultar o guia e pedir permissão para a realização da evocação…

Nossos leitores poderiam questionar: e as reuniões de desobsessão?

Mesmo assim, em reuniões sérias, quem na verdade decide quem deve vir são os orientadores espirituais. De fato, mesmo que se coloquem os nomes sobre a mesa, só aparecem aqueles a quem a Espiritualidade permitir a comunicação.

Assim, acreditamos que este assunto esteja concluído. Não é assim, caro leitor amigo?

Fiquem em paz!

_________________________________________________________________________________________

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Guia dos Médiuns e dos Evocadores. 1. ed. São Paulo: Petit, 2004.

2 Equipe do Projeto Manoel Philomeno de Miranda. Estudando o Livro dos Médiuns. 1. ed. 2. reimpr. Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada, 2008.

3 XAVIER, Francisco Cândido Xavier. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. 13. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1986.

_________________________________________________________________________________________

Editor e autor Espírita, coordena o Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP).  Site: www.irmascheilla.org.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *