EDITORIAL No 149 (Julho, 2026) – “Suicídio. O que leva um Espírita a isso?”
Editor responsável: Fabio Dionisi
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br
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Embora seja compreensível, considerando-se a atual fragilidade psíquica do ser humano, confessamos que não poucas vezes ficamos chocados com a notícia de que um Espírita tenha se suicidado, justamente em função do que a Doutrina Espírita ensina a respeito.
Não ficamos tão intrigados quando se trata de insanidade mental, ou como decorrência de uma grave obsessão, mas nos surpreende quando a causa é a perda da vontade de viver, em outras palavras, ou de enfrentar as lutas da vida.
Talvez porque a loucura seja mais “digestível”, uma vez que muitos médiuns, não raramente, perdem-se na tarefa, acabando envolvidos em obsessões complexas, e, não poucas vezes, violentas.
A conclusão que chegamos é a de que: ou ainda ignorava o que significa suicidar-se, perante as Leis Divinas, e suas consequências dramáticas, ou, mesmo não ignorando, não conseguiu ter a força interior, e o equilíbrio necessário, para evitar este ato.
Com o fito de contribuir para que não aconteçam mais suicídios em nosso meio, decidimos escrever este artigo; e, como sempre, buscaremos em Kardec os subsídios necessários.
Rico em seu conteúdo, o mestre lionês discorre muito bem sobre o suicídio e a loucura, em O Evangelho segundo o Espiritismo1.
Da sua leitura, aprendemos que as causas, que levam ao suicídio, podem ser divididas em inconscientes ou conscientes.
As inconscientes são aquelas em que o indivíduo não está sob o controle de seu raciocínio, como é o caso das que decorrem da loucura, embriaguez, uso de drogas alucinógenas, subjugação por parte de espíritos obsessores, etc.
Nestas condições, o indivíduo não está consciente quando executa ações que o levem ao desencarne prematuro. Nesta categoria poderíamos também incluir, embora nem sempre, os suicídios causados por excessos, tais como alimentares, ingestão abusiva de bebidas alcoólicas, luxúria, overdose medicamentosa não intencional, etc.; onde o nosso irmão, por exceder-se, na prática de seus vícios, provoca a destruição de seu vaso físico; denominado, por André Luiz, no livro Ação e Reação, como “suicídio indireto através do mergulho deliberado na viciação”.
E, por fim, os conscientemente cometidos. E são nestes em que nos deteremos…
O primeiro ponto a analisar são as causas que notadamente levam ao suicídio, o que Kardec1 desenvolve em profundidade.
- Adesão a uma doutrina materialista; “a propagação das doutrinas materialistas é o veneno que inocula a ideia do suicídio na maioria dos suicidas”;
- A ignorância quanto à vida futura, ou seja, a crença no nada após a morte do corpo físico; “para o que não crê na eternidade e julga que com a vida tudo se acaba, se os infortúnios e as aflições o acabrunham, unicamente na morte vê uma solução para as suas amarguras. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar pelo suicídio as suas misérias”;
- Descontentamento, “quaisquer que sejam os motivos particulares que se lhe apontem”, quando acompanhados de revolta, isto é, inconformismo com as Leis Divinas.
Enfatizando que: “A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as idéias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio; ocasionam a covardia moral”.1
E ousaríamos acrescentar outro, o egoísmo, pois, na maioria dos casos, terceiros saem prejudicados, tanto nos aspectos materiais, quanto nos psicológicos; sendo suas vidas drasticamente impactadas.
Se as causas foram listadas, e muito bem elucidadas, não menor contribuição nos deixou, nosso codificador, quanto aos antídotos disponíveis.
“A calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida terrestre e da confiança no futuro dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos de loucura se deve à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem a coragem de suportar. Ora, se encarando as coisas deste mundo da maneira por que o Espiritismo faz que ele as considere, o homem recebe com indiferença (…) os reveses e as decepções que o houveram desesperado noutras circunstâncias, evidente se torna que essa força, que o coloca acima dos acontecimentos, lhe preserva de abalos a razão, os quais, se não fora isso, a conturbariam”.
Às quais, especificamente, desejamos acrescentar uma: o conhecimento dos efeitos decorrentes de tais atos… Quanto as dores e sofrimentos que aguardam o suicida.
Só isso já deveria ser suficiente para se pensar duas vezes antes de se cometer esta afronta à vontade do Pai. De fato, tanta importância tem sido dada pelos nossos Benfeitores que, desde o início formal das comunicações com os Espíritos desencarnados, não faltaram descrições e depoimentos sobre os resultados.
Quanto aos mesmos, recomendamos a leitura do capítulo “O vale dos suicidas”, do livro Memórias de um suicida2, escrito pela destacada confreira Yvonne A. Pereira. Conhecemos pessoas que, não obstante equilibradas e esclarecidas nos temas doutrinários, não conseguiram ainda concluir a leitura desta obra, tamanho o impacto das descrições…
“Ninguém viola impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem encurtar a sua vida”1
Por isso, o Espírita, mais que qualquer outra pessoa, tem motivos suficientes para vencer qualquer tendência suicida que por ventura possa ter: “(…) a certeza de uma vida futura, em que (…) será tanto mais ditoso, quanto mais inditoso e resignado haja sido na Terra: a certeza de que, abreviando seus dias, chega, precisamente, a resultado oposto ao que esperava; (…) que se engana, imaginando que, com o matar-se, vai mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo a que (…) ele se reúna aos que foram objeto de suas afeições e aos quais esperava encontrar”.1
Portanto, em nada sobrevindo de favorável, “o suicídio (…) é contrário aos seus próprios interesses (…)”.1
Prossegue Kardec, vaticinando que quando todos os “homens forem espíritas, deixará de haver suicídios conscientes”. Obviamente o mestre lionês referiu-se a época quando todos tiverem internalizado seus conceitos doutrinários e, efetivamente, vivenciarem seus preceitos; na certeza de que, assim ocorrendo, melhor antídoto não poderia existir…
E se nossos leitores afirmarem que os não espíritas são desculpáveis pelo desconhecimento, discordaremos em gênero, número e grau, uma vez que Deus colocou um termômetro interno em cada Espírito por Ele criado, a consciência, a nos alertar do que é certo e do que não é correto.
Na questão 621, em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta onde está escrita a Lei de Deus e os Espíritos respondem: — Na consciência.
Tanto é verdade que podemos constatar, por exemplo, nos livros de André Luiz e da Yvonne A. Pereira, que todos aqueles que cometem suicídio consciente sofrem consequências análogas, variando apenas na intensidade da pena, em função do maior ou menor conhecimento (consciente) da Lei de Deus.
Por isso, após esta revisão, sem risco de errarmos, asseveramos que, se um Espírita não consegue superar este impulso destrutivo, só pode ser decorrência de uma, ou mais situações:
- Não estudou o suficiente, o que, diga-se de passagem, infelizmente, é muito comum em nosso meio;
- Embora sendo mais esclarecido que a média, o Espírita é também um ser humano, enfrentando toda sorte de dificuldades e suas próprias fraquezas, e que, embora ninguém receba um fardo mais pesado do que possa suportar, lamentavelmente pode sucumbir diante de suas vicissitudes;
- Problemas obsessivos graves, não tratados de forma conveniente;
- Casos psiquiátricos complexos, não identificados e nem controlados a tempo.
E, para finalizar este artigo, deixaremos uma reflexão para todos os Espíritas: para todos nós, invariavelmente, não existem atenuantes, só agravantes, uma vez que “a quem muito foi dado, muito será cobrado…”.
Portanto, queridos confrades e confreiras, reflitam muito bem quando pensamentos em desalinho rondarem vossa mente…
Um abraço fraterno a todos.
Fiquem na Paz do Pai, sempre.
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P.S.: Para quem tiver interesse em aprofundar-se sobre o tema, sugerimos a leitura de obra de nossa lavra: Suicídio. Precisamos falar a respeito. 3
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1 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 129. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 5, itens 14 a 17.
2 PEREIRA, Yvonne A. Memórias de um suicida. Pelo Espírito Camilo Cândido Botelho. 7. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010.
3 DIONISI, Fabio. Suicídio. Precisamos falar a respeito. Editora Dionisi. 1.ed. Ribeirão Pires: Editora Dionisi, 2019
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O autor é presidente do CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br

