Influenciação Espiritual. Um ensaio.
Fabio Alessio Romano Dionisi
fabiodionisi@terra.com.br
___________________________________________________________________________ _______________
Sem nos ater às questões das comunicações mediúnicas, e nem aos casos de obsessão, subjugação e possessão, nosso objetivo é refletir sobre a influenciação, ao que todos estão sujeitos. Sim, todos! Pois não é necessário ser um médium ostensivo para se relacionar, ou interagir, com os ditos “mortos”.
Graças a Kardec, sabemos que os Espíritos podem se comunicar conosco, como, por exemplo, através do pensamento.
“Agora resta saber se o Espírito pode se comunicar com o homem, ou seja, se pode haver entre ambos troca de pensamentos. E por que não? (…) Por que o Espírito livre não poderia se comunicar com o Espírito cativo, como um homem livre se comunica com um que está aprisionado?”1 (p.18)
Certa feita nos deparamos com um exemplo típico, a respeito: “[dois Espíritos em conversação] Arquimedes me indicou, diante das portas da loja [da vítima], alguns Espíritos integrados na vingança de Sílvia. Quando alguém intentava entrar no estabelecimento, debruçavam-se sobre a pessoa e cochichavam algo no seu ouvido. A pessoa parava, hesitante, às vezes, entrava, às vezes, voltava a caminhar pela calçada. Dentro de estabelecimento, outros Espíritos, também, atuavam na tentativa de prejudicar. Se a pessoa conseguia entrar, aqueles influenciavam-nas, falavam no seu ouvido, e elas acabavam não comprando.”2 (p. 58-59)
Acreditamos que nada mais precisa ser acrescentado sobre se a influenciação seja possível.
Melhor repelir dez verdades do que admitir uma única teoria falsa
Uma vez que todos o são, pelos que habitam o meio espiritual, premeditada ou sem intenção deliberada, podemos aceitar tudo o que nos é passado via pensamento?
O Espírito de Erasto nos aconselhou que não.
“Na dúvida, abstém-se (…). Não admitais, portanto, o que não for para vós de uma evidencia certa. Desde que uma opinião nos se apresenta (…), o que a razão e o bom senso reprovam, rejeita-o com firmeza. Melhor repelir dez verdades do que admitir uma única mentira (…), e se rejeitais hoje algumas verdades (…), logo um fato normal, natural, ou uma demonstração irrefutável virá vos afirmar a autenticidade disso.”1 (c. 20; it. 230)
A razão e o bom senso também nos levam a estender esta sugestão a todo tipo de comunicação que recebemos, quer seja uma teoria, conceito, conselho ou intuição.
E não é o que fazemos, diariamente, nas nossas relações com os irmãos encarnados? Por acaso lhes aceitamos todas as sugestões?
Pois é assim que devemos proceder também com os desencarnados…
Obviamente é mais complexo, uma vez que não poderemos contar com a “linguagem corporal” do comunicante. Ademais, a identificação de quem fala é mais difícil.
Todavia, sempre podemos usar o nosso discernimento nas avaliações necessárias.
Além disso, precisamos verificar o que se passa em nosso íntimo, mesmo em se tratando de um simples pensamento que, aparentemente, brote em nossa mente. A bem da verdade, é o que deveríamos fazer sempre, uma vez que os nossos defeitos, vícios e paixões, são os que acionam o gatilho de nossas vontades e ações; assim como os mesmos são os elementos de atração daqueles desencarnados que se afinam conosco.
A primeira coisa que passou em nossa mente, quando iniciamos este tópico, foi uma mensagem recebida por um dos melhores médiuns da Sociedade Espírita de Paris, e que, embora assinada por Jesus de Nazaré, Kardec absteve-se de usar o nome do Mestre; apesar de, conforme suas próprias palavras, o Mestre Lionês lhe ateste a “superioridade incontestável da linguagem e dos pensamentos, deixando a cada um o cuidado de julgar se aquele de quem traz o nome não as desmentiria”.1 (c. 31; it. 9)
Mas convenhamos que, caros amigos, mesmo assim é muito difícil peneirar o joio do trigo…
Por isso, afirmaríamos que não foi à toa que o Espírito de Verdade nos recomendou: “Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo (…)”.3 (c. 6, it. 6)
E é nelas que encontraremos a receita desejada, para não errarmos tanto em nossos julgamentos.
E, neste ponto, numa pequena digressão, voltamos a enfatizar que isso inclui tudo o que “surge” em nossa mente, uma vez que tanto pode ser de terceiros, como ser nosso…
Mas voltemos à receita proposta.
Diríamos que ela possa ser dividida em três partes; sendo que a primeira encontra-se em: “Todas as verdades encontram-se no Cristianismo”.
Comecemos por ela.
Jesus passou tudo o que precisávamos saber para bem nos conduzir. Se foram omitidos os conhecimentos sobre a vida Espiritual, se muitas parábolas ficaram com seu sentido oculto, o mesmo não aconteceu com seu ensino moral. Até nisso os seus evangelistas foram coincidentes. Podemos até encontrar diferenças no que tange aos fatos históricos, palavras proferidas, etc., mas, no que concerne aos ensinamentos morais, houve unanimidade entre os quatro.
Certa feita, o nosso benfeitor espiritual disse-nos que, se lêssemos umas poucas páginas do Evangelho, seria o suficiente para sabermos o que podemos fazer e o que não devemos.
Ao nosso ver, tudo o que o Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou é relevante, mas três são de capital importância:
- “E assim, tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles (…)” (Mt. 7:12).
- A isso Ele nos acrescentou que não deveríamos fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem.
- “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Estes dois mandamentos contêm toda a lei e os profetas.” (Mt. 22:34-40)
Se lembrarmos de verificar tudo o que nos alcança, via espiritualidade, à luz destes ensinamentos, mais fácil separaremos o que serve daquilo que não presta.
No demais, é uso do bom senso e da aplicação do nosso próprio conhecimento.
E aqui chegamos ao segundo ponto: o conhecimento.
Explicar-nos-emos melhor.
O Espírito de Verdade não nos incitou ao “instruí-vos”? Pois bem, sem informação é complicado separar o joio do trigo. Por isso, precisamos conhecer a verdade expressa por Jesus, o Messias, bem como as leis que regem este Universo, para entender às leis divinas; necessitamos do autoconhecimento, para anular os impulsos internos que nos levam ao erro; urge entender como funciona o Mundo Maior, para nortear as nossas vidas de acordo com o Plano Superior; é mister compreender os problemas do ser, do destino e da dor, para melhor aceitarmos os acontecimentos.
Sem eles, como guiar nossas vidas?
E, para isso, só existe um caminho: muito estudo, autoanálise, reflexão, conhecimento do que se passa em nosso interior e a nossa volta, para tornar-nos mais imunes a toda esta influência externa perniciosa.
E, por fim, seguindo a segunda sugestão do Espírito de Verdade, o terceiro elemento: o “amai-vos!” Filtro que evitará assumirmos uma postura que seja contra os interesses legítimos de nossos irmãos, e, consequentemente, aos nossos …
Conclusão
Acreditem, caros leitores, que não é só através das obsessões que enfrentamos dificuldades nesta relação contínua com o chamado “mundo dos mortos”.
A humanidade terrestre é composta de aproximadamente trinta bilhões de Espíritos, dos quais sete estão encarnados, e, consequentemente, vinte e três bilhões encontram-se desencarnados. Estes últimos, como boa parte estão ainda em estágio evolutivo inferior, encontrando-se ainda imantados à matéria, e, logo, circulando à nossa volta, influenciam-nos quase que continuamente.
“Nós também, portanto, [estamos] cercados por uma nuvem de testemunhas…”, segundo as palavras de Paulo, em sua Carta aos Hebreus, 12:1.
Por conseguinte, é muito natural a dificuldade, neste rapport, com o mundo espiritual …
Fiquem em paz!
____________________________________________________________________________________________________
1 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. São Paulo: Petit, 2004.
2 GENTILE, Salvador. Liberação. 6. ed. Araras, SP: IDE, 1991.
3 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 64. ed. São Paulo: Lake, 2007.
____________________________________________________________________________________
O autor é presidente do CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP).

