Casa Mental

[Flávio Rolim] frolim.goeasy@gmail.com

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*  O termo “casa mental” refere-se ao estudo contido no capítulo 3 do livro “No Mundo Maior”, de André Luiz, psicografado por Chico Xavier. Nesta obra, o cérebro e a mente humana são comparados a um castelo de múltiplos andares que reflete nossa evolução, pensamentos e estado espiritual.

Estamos construindo a nossa casa mental desde sempre e parece que esta construção não tem fim.

Construção que carece de um alicerce firme, seguro, que sustente essa edificação, para que ela mostre a beleza que eleva a nossa consciência e a bondade que promova a harmonia entre os homens. Deve também representar, fielmente, a justiça que ordena e coloca cada coisa no seu devido lugar, junto com o amor e com a caridade, virtudes que são o corolário das leis divinas, leis gravadas na consciência de cada um de nós.

Sem esse alicerce, a construção não se sustentará e mostrará a displicência e a ignorância do construtor, que somos nós mesmos, os únicos responsáveis por esta construção! E não nos enganemos quanto a isso, somos os únicos responsáveis pelo que faremos com essa edificação e com o que nos tornaremos.

Para desenvolvermos essa construção, devemos seguir diretrizes que darão uma base firme para elevarmos essa casa, que representará o nosso estágio de conhecimento, ou melhor dizendo, o nosso estágio evolutivo. Ela será tanto mais confortável, mais ampla, mais alegre e mais convidativa, quanto mais seguirmos essas diretrizes!

As diretrizes a que nos referimos estão gravadas na nossa consciência e foram exemplificadas pelo Emissário Mór do Arquiteto Sideral, se é que podemos chamar assim a Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas, que foi quem estabeleceu as leis divinas que regem, de maneira sábia, eterna e imutável, o Universo. Essas leis estão muito bem explicitadas nos livros da codificação do Espiritismo, obra escrita por ordem e ditado dos Espíritos superiores, para Allan Kardec, para estabelecer os fundamentos da Doutrina Espírita.

Essas diretrizes já foram experimentadas e validadas por muitos Espíritos que vieram antes de nós, que, pelas suas vivências e experiências acumuladas, nos ensinam hoje, a edificar a nossa casa mental de uma maneira mais econômica, em tempo e trabalho.

Mas como seguir essas orientações? Como atender a essas diretrizes?

Façamos uma simples analogia: o proprietário de uma casa, nem grande nem pequena, olhando o que já tem, vê que precisa melhorar a aparência, consertar defeitos, que o tempo fez surgir, e que seria bom torná-la mais confortável, mais ampla e mais adequada às suas necessidades. Avalia as suas possibilidades e começa a reforma. Conserta alguns defeitos, coloca tinta nova nas paredes, desfaz-se de alguns móveis quebrados, conserta outros e dá um novo aspecto à sua casa. Fica satisfeito com o resultado, mas …, sempre tem um mas, entende que poderia ter feito mais, pois a sua casa continua sendo a mesma e que a reforma só escondeu os defeitos e que a tinta tirou o encardido das paredes, que poderá voltar a qualquer momento.

Mas o proprietário quer mais e conclui que seria melhor ter espaços maiores e mais confortáveis. Incentivado por essas novas ideias, começa a pensar no futuro e quando ele começa a projetar o futuro, ele alcança um patamar mais elevado de realização. Realização no hoje, para construir o amanhã! Começa aí a transformação do que é de sua posse, pois conhecendo o que já tem, sabe que pode ter mais e ele quer mais. Convencido disso, coloca mãos à obra. Derruba paredes; de dois cômodos faz um; amplia os espaços das portas; constrói novos cômodos; aumenta o vão das janelas; favorece a entrada de mais luz; torna espaços inúteis em espaço de convivência; troca as velhas mobílias por novas; torna os ambientes, agora em maior número, mais arejados e luminosos.

Trabalho árduo, demorado, paulatino, que consome muitos recursos, muito esforço, mas assim mesmo ele continua resoluto, animado e decidido a não desistir, pois a cada ação dessa transformação percebe que o resultado tende a ser muito bom, melhorando a sua condição de vida.

Olhando a casa transformada, sente um prazer e uma alegria que nunca havia sentido antes e se pergunta por que não teve essa ideia antes. Consola-se, entendendo que talvez não estivesse pronto para tal empreitada. Vivia o imediato, o agora, sem pensar e nem preparar o futuro.

Com a obra pronta, com o plano de transformação concluído, agora sabe, intimamente, que está mais preparado para empreender novas transformações na sua casa, pois desfrutando dos novos espaços, adequadamente organizados, já visualiza novos aprimoramentos que poderá fazer, pois o sentimento que ficou desse trabalho é a certeza de que pode fazer mais, muito mais! Agora ele entendeu que o futuro começa agora e é no hoje que deve prepará-lo.

Para seguirmos a explorar este pequeno exemplo acima, vamos ver como Calderaro explica para André Luiz, qual a estrutura do castelo mental:

“– Não podemos dizer que possuímos três cérebros simultaneamente. Temos apenas um que, porém, se divide em três regiões distintas. Tomemo-lo como se fora um castelo de três andares: no primeiro situamos a residência de nossos impulsos automáticos, simbolizando o sumário vivo dos serviços realizados; no segundo localizamos o domicílio das conquistas atuais, onde se erguem e se consolidam as qualidades nobres que estamos edificando; no terceiro, temos a casa das noções superiores, indicando as eminências que nos cumpre atingir. Num deles moram o hábito e o automatismo; no outro residem o esforço e a vontade; e no último demoram o ideal e a meta superior a ser alcançada. Distribuímos, deste modo, nos três andares, o subconsciente, o consciente e o superconsciente. Como vemos, possuímos, em nós mesmos, o passado, o presente e o futuro.”

O exemplo que utilizamos, não é muito diferente das transformações que precisamos fazer na nossa casa mental, quando percebemos que o espaço mental está se tornando pequeno e apertado, que a arrumação ou disposição do conteúdo desse espaço já não satisfaz, que hábitos, costumes, magoas, rancores, preguiça, comodismo, falta de sentido ocupam muito espaço da nossa casa mental, e nos sentimos presos nesse emaranhado de sentimentos negativos, sem a possibilidade de espaço para novas mentalizações, é quando devemos pensar que alguma coisa precisa mudar, é quando precisamos transformar a nossa casa mental, desfazer de hábitos e costumes antigos, de magoas e rancores, da preguiça e comodismo, dar um sentido à nossa vida,  ampliar o nosso entendimento, reconhecer as nossas falhas, despertar e ampliar a nossa consciência, a consciência de quem nós somos, com a certeza que podemos mais, muito mais do que podemos imaginar.

Não fazer as transformações necessárias e ficar apenas nas simples e retóricas reformas adoeceremos, tornando a nossa casa mental intoxicada, aberta a conexões com outras casas mentais doentias, perniciosas e viciosas, tanto encarnadas como desencarnadas. Não fazer as transformações necessárias, fechamos o nosso acesso ao terceiro andar, onde situam-se as concepções superiores, com isso, há o relaxamento da nossa vontade e entregamo-nos à preguiça e ao comodismo e abandonamos o segundo andar, sede do esforço próprio, e perdemos valiosas oportunidades de regeneração. Esses movimentos nos levam para o primeiro andar, onde estão os impulsos instintivos, onde se arquivam todas as experiências da animalidade anterior.

O que poderá acontecer quando fazemos morada nesse primeiro andar? Criaremos o nosso próprio inferno, produziremos idéias de tormento, de aflição, de vingança, alimentaremos a vaidade, o orgulho, a soberba, o egoísmo. Iludidos, só nos saciaremos com os prazeres da carne, embora efêmeros e fugidios. Com tudo isso, nos tornaremos mais resistentes ao conhecimento do que está acontecendo conosco e ao processo de transformação de nós mesmos.

Estamos falando aqui de autoconhecimento, “que não significa um conhecimento puramente intelectual, mas um relacionamento íntimo e amoroso de uma pessoa com o seu eu, seu núcleo mais íntimo”, conforme nos dizem Anselm Grün e Hsin-Ju Wu, no livro “A beleza de ser você mesmo”, da Editora Vozes.

Este autoconhecimento nos permitirá sair do inconsciente e ter acesso ao consciente, que significa o conhecimento da nossa identidade, da nossa essência, adentrando o nosso santuário interior, sem ser afetado por influências externas. Nessa jornada transformativa, atingiremos o terceiro andar, o andar das concepções superiores, o andar do superconsciente e poderemos confirmar que somos deuses, como asseverou Jesus, quando parafraseando o salmista, disse: “Vós sois deuses.”

Para empreendermos essa transformação, que não é uma simples reforma, basta querermos conscientemente, com uma boa dose de ousadia e coragem, definir metas factíveis, estudar, entender e praticar as leis divinas gravadas na nossa consciência, agir com autonomia, apurar o nosso senso moral, ressignificar e dignificar a nossa existência material, mas priorizar a nossa natureza espiritual, que é eterna!

Lembremo-nos das palavras de Jesus: “Fareis o que eu faço e muito mais!”

Queiramos pois!

“O primeiro passo exige coragem, os seguintes, disciplina!”

(Frase em um grafite na Avenida Jabaquara)

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