O dízimo
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br
Artigo publicado na RIE – Revista Internacional de Espiritismo, em 2016.
Há pouco tempo, numa reunião pública, que pela misericórdia de Deus estávamos realizando, um querido amigo nos propôs que explicássemos por que o dízimo não é aceito nos Centros Espíritas, que também precisam pagar suas contas, uma vez que o mesmo aparece no próprio Antigo Testamento?
Habituados às leituras da Doutrina Espírita, a resposta parecia bastante óbvia, ao ponto de até ficarmos surpreendidos com a pergunta; mas, passado o primeiro momento, verificamos que a resposta não é tão evidente quanto parece ser, a princípio; por isso, decidimos pesquisar e compartilhar nossos modestos aprendizados.
Iniciemos, capturando as passagens bíblicas que levaram a tantos considerarem legítima a prática do dízimo em suas ecclesias.
Escolhemos A Bíblia de Jerusalém 1, por ser considerada bastante ecumênica, uma vez que esse trabalho foi realizado por uma equipe de exegetas católicos e protestantes, e por um grupo de revisores literários.
Na nota de rodapé “x”, encontramos que o dízimo era uma renda recebida pelo verdadeiro dono do solo; portanto, devida a Iahweh, que é real dono da terra de Israel. Encontramos no Deuteronômio que o dízimo era relativo ao que é produzido nos campos, sendo levado ao Templo, e que a cada três anos deveria ser deixado para os pobres. Em Números, ele aparece como um imposto devido aos levitas, sendo que estes retiravam uma décima parte para os sacerdotes, como antecipação ao Deus dos Judeus. Segundo Levítico, deve incluir o rebanho.1
(Levítico 27:30-32) “Todos os dízimos da terra, tanto dos produtos da terra como dos frutos das árvores, pertencem a Iahweh; é coisa consagrada a Iahweh.”
(Números 18:26) “Falou também o Senhor a Moisés, dizendo: Ordena e manda aos levitas isto: Quando receberdes dos filhos de Israel os dízimos, que eu vos dei, oferecei ao Senhor as primícias deles, isto é, o dízimo, do dízimo.”
(Deuteronômio 14:22) “Todos os anos separarás o dízimo de todo o produto da tua semeadura que o campo produzir, e diante de Iahweh teu Deus.”
(II Crônicas 31:5) “Logo que foi promulgada essa ordem, os filhos de Israel ajuntaram as primícias do trigo, do vinho, do óleo, do mel e de todos os produtos agrícolas e trouxeram em abundância o dízimo de tudo.”
(Malaquias 3:10) “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida.”
Após todas estas citações, não se pode negar que o dízimo se encontra no Antigo Testamento. Tratava-se de uma exigência da lei, segundo a qual o povo israelita era obrigado a dar um décimo do fruto de tudo que fosse gerado pelo seu trabalho para Iahweh, Deus dos judeus.
Se analisarmos, friamente, o destino deste dízimo, podemos compreender que passou a se tratar de uma forma de taxação, cujo objetivo era prover as necessidades dos Levitas e sacerdotes.
Já, no Novo Testamento, composto pelos quatro Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Cartas e o Apocalipse de João, em nenhum deles aparece a obrigatoriedade do cumprimento desta lei.
Jesus não recomenda e nem obriga aos seus discípulos fazê-lo.
Em duas de suas cartas, Paulo solicita que, para aqueles que possam ajudar a Igreja, que o façam; mas, não estipula obrigatoriedade e nem valores.
“Quanto à coleta em favor dos santos [os cristãos de Jerusalém], segui também vós as normas que estabeleci para as Igrejas de Galácia. No primeiro dia da semana [domingo], cada um de vós ponha de lado o que conseguir poupar; deste modo, não se esperará a minha chegada para se fazerem as coletas.” (I Cor, 16:1-2)
“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria”. (II Cor, 9:7)
Ele também esclarece que, em sua Carta aos Hebreus (cap. 7), com o advento de Jesus, seus seguidores não precisavam seguir a lei anterior, em função da nova forma de sacerdócio que o Mestre estabelecera: “assim sendo, está abolida a prescrição anterior; porque era fraca e sem proveito” (Hebreus, 7:18)
No Espiritismo, nada encontramos que obrigue o pagamento da décima parte dos proventos realizados pelo fiel.
Para começo de conversa, Allan Kardec registra, logo no primeiro capítulo do Evangelho segundo o Espiritismo: “Na lei moisaica, há duas partes distintas: a lei de Deus, promulgada no monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, decretada por Moisés. Uma é invariável; a outra, apropriada aos costumes e ao caráter do povo, se modifica com o tempo. A lei de Deus está formulada nos dez mandamentos” (item 2). Para mais à frente explicar que: “Jesus não veio destruir a lei, isto é, a lei de Deus; veio cumpri-la, isto é, desenvolvê-la, dar-lhe o verdadeiro sentido e adaptá-la ao grau de adiantamento dos homens (…). Quanto às leis de Moisés (…), ele, ao contrário, as modificou profundamente, quer na substância, quer na forma. Combatendo constantemente o abuso das práticas exteriores e as falsas interpretações, por mais radical reforma não podia fazê-las passar, do que as reduzindo a (…): ‘Amar a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo’, e acrescentando: aí estão a lei toda e os profetas”. (item 3)
Nos Evangelhos encontramos que Jesus recomenda aos seus discípulos: “Não ireis ao meio dos gentios nem entrareis em Samaria; ide antes às ovelhas que se perderam da casa de Israel. Por onde andardes, anunciai que o Reino dos céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai!” (Mt, 10:5-8)
Por esse motivo, na era apostólica, após o retorno de Jesus ao Mundo Espiritual, nada se cobrava ou exigia dos discípulos e atendidos. Nem na Casa do Caminho, nem nas primeiras igrejas: Jerusalém, Antióquia, Corinto, etc.
Se, a bem da verdade, era costume todos dividirem seus bens com os demais, nada era obrigado.
“A fim de proverem sustento aos convertidos, tinham por hábito repartir seus bens. Quando havia necessidade, os fiéis vendiam o que tinham e davam aos apóstolos o dinheiro arrecadado para ser distribuído na comunidade.” 2 (p. 30-31)
Tudo devia ser feito espontaneamente; até mesmo no episódio de Ananias e Safira, Pedro, ao descobrir que haviam guardado uma parte para si, pergunta-lhes: “Porventura, mantendo-o, não permaneceria teu? E, vendido, não estaria sob a tua autoridade?” (Atos, 5:1-11)
Prosseguindo com a Doutrina Espírita, todos os Espíritas aprendem o “Daí de graça, aquilo que de graça recebestes”. É, por isso, que num Centro Espírita, que siga Jesus Cristo e a Codificação Kardequiana, não se encontrará nenhum tipo de coleta, a título de pagamento pelos atendimentos realizados; bem como, nenhum voluntário, mesmo dirigente da Instituição, é remunerado pelo Centro Espírita. Nem obrigatoriedade e nem quantia, por parte dos atendidos; nem salário, para os da Casa Espírita.
Aceitam-se doações, desde que espontâneas. Como entidade jurídica, precisarão ter associados, que até contribuam como tais, se assim o Estatuto definir; contudo, a afiliação não é obrigatória para se poder usufruir da caridade exercida dentro da Instituição.
Ademais, está mais do que provado que os dirigentes não necessitam de tais dízimos para sua subsistência; uma vez que podem trabalhar para seu sustento, exercendo profissões externas. E, mesmo não recebendo nada, como voluntários, ainda assim conseguem exercer suas tarefas sem prejuízo na qualidade dos serviços prestados.
O modelo adotado, pelos Espíritas, também demonstrou que os Centros Espíritas, desde que bem dirigidos, não precisam do dízimo, para se manterem abertos.
“Jesus não veio destruir a lei, isto é, a lei de Deus; veio cumpri-la, isto é, desenvolvê-la, dar-lhe o verdadeiro sentido e adaptá-la ao grau de adiantamento dos homens (…). Quanto às leis de Moisés (…), Ele, ao contrário, as modificou profundamente, quer na substância, quer na forma.”
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1 A Bíblia de Jerusalém. 9. ed. revista. São Paulo: Edições Paulinas.
2 CAVALCANTI, Sergito de Souza. A casa do caminho, e os primeiros cristãos. Santa Luzia: Editora Cristo Consolador, 2008.
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O autor é responsável pelo CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br

