Quantas vezes de vemos perdoar?
Da obra: Espiritismo para iniciantes e iniciados.
[José Dutra] dutra2507@hotmail.com
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O apóstolo Pedro perguntou a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus respondeu-lhe: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete.”(1)
Setenta vezes sete é igual a 490 vezes. Será que isso significa que o perdão tem esse limite?
É claro que não. Os espíritos sempre nos chamam a atenção para não interpretarmos o Evangelho ao pé da letra. Jesus usou uma quantidade muito maior que as sete vezes perguntadas por Pedro para mostrar que o perdão não deve ter limites, isto é, devemos perdoar as ofensas sempre, tantas vezes quanto elas nos forem feitas.(2)
Por que Pedro usou o número sete?
Porque o número sete era considerado um número especial, tanto é que aparece muitas vezes na Bíblia. Alguns exemplos:
– Gênesis 2:3: Deus santificou o sétimo dia, porque nele descansou após a criação.
– Gênesis 41:2: O faraó teve um sonho, onde viu subir do rio Nilo sete vacas de bela aparência.
– Mateus 22:25: Os saduceus fazem uma pergunta a Jesus referente a sete irmãos.
– Marcos 16:9: Jesus expulsou sete demônios de Maria de Magdala.
– Apocalipse 1: João fala de sete igrejas, sete candelabros e sete estrelas.
Ainda hoje temos muitas coisas e expressões relacionadas ao número sete: sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete notas musicais, sete sacramentos, sete pecados capitais, missa de sétimo dia, sétimo céu, pintar o sete, fechar a sete chaves, o gato tem sete vidas, bicho de sete cabeças, sete anos de azar para quem quebrar um espelho, e Branca de Neve e os sete anões.
Por que Jesus usou a expressão setenta vezes sete?
Em primeiro lugar, conforme vimos acima, para mostrar que o perdão não tem limites. Jesus fez uso de uma figura de linguagem a que hoje chamamos hipérbole, que é a expressão de uma ideia com exagero, para dar ênfase. Por exemplo:
– Já disse isso mais de um milhão de vezes!
– Chorei um rio de lágrimas.
Em segundo lugar, Jesus usou a expressão setenta vezes sete certamente em contraposição a um texto da lei mosaica existente no livro Gênesis, no relato sobre Caim e Abel.
Vejamos o que diz o relato: Caim, filho de Adão e Eva, após matar seu irmão Abel e ser expulso de suas terras por Jeová, ficou com medo de que alguém o matasse, mas Jeová colocou um sinal em Caim para que ele não fosse morto por quem o encontrasse, e lhe disse: “Quem matar Caim será vingado sete vezes.”(3)
Um dos descendentes de Caim, chamado Lamec, depois de matar um homem, expressa todo seu sentimento de vingança quando diz: “É que Caim é vingado sete vezes, mas Lamec, setenta e sete vezes.”(4)
O povo judeu era muito vingativo, provavelmente em função dessas palavras de Jeová e de Lamec, que incentivavam a vingança, e da lei de talião, estabelecida por Moisés, que determinava olho por olho, dente por dente.(5)
Mas Jesus, que combatia fortemente a violência, mostrou, na sua resposta a Pedro, que, ao contrário da vingança, devemos perdoar. E, para enfatizar seu ensinamento, usou a mesma expressão do relato da lei mosaica.
Enfim, seguindo o ensinamento do nosso Mestre Jesus, devemos perdoar sempre, de forma incondicional, sem limites, tantas vezes quanto formos ofendidos.
(1) Mateus 18:21-22.
(2) O Evangelho segundo o Espiritismo – Allan Kardec, capítulo X, itens 4 e 14.
(3) Gênesis 4:15.
(4) Gênesis 4:24. A expressão “setenta e sete vezes” também se traduz como “setenta vezes sete”, conforme a Bíblia de Jerusalém – edição 2004, Mateus 18:22, nota f.
(5) Levítico, capítulo 24.
Este artigo é uma adaptação do capítulo 30 do livro Espiritismo para Iniciantes e Iniciados, do mesmo autor, publicado pela Editora Dionisi.

