Editorial 144 (Fevereiro, 2026): “O Espírito constrói seu mundo exterior.”
Editor responsável: Fabio Dionisi
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br
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O Espírito utiliza-se do fluido universal (fluido primitivo, fluido elementar ou éter), e sob a sua ação produz matéria em outras formas.
Iniciemos pelo O livro dos Espíritos 1, a primeira de suas obras, no campo da Doutrina Espírita.
Logo na Q. 22a, ao perguntar sobre uma definição para a matéria, a espiritualidade responde que é laço que prende o Espírito, “o instrumento de que este se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação. (…) a matéria é o agente, o intermediário com o auxílio do qual e sobre o qual atua o Espírito.”
O que volta à baila na Q. 27. O Espírito se utiliza do fluido universal, e sob a sua ação produz matéria em outras formas.
O fluido universal é matéria, “e suscetível, pelas suas inúmeras combinações com esta e sob a ação do espírito, de produzir a infinita variedade das coisas de que não conheceis senão uma ínfima parte.” 1 (p. 82)
Uma destas produções, muito conhecida por nós, é o perispírito. O Espírito constitui o seu perispírito tirando do meio ambiente, do fluido universal.
“(Q. 257) O perispírito é o laço que à matéria do corpo prende o Espírito, que o tira do meio ambiente, do fluido universal (…). Haurido do meio ambiente, esse invólucro varia de acordo com a natureza dos mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos mudam de envoltório (…). Quando vêm visitar-nos, os mais elevados se revestem do perispírito terrestre.”
No Livro dos Médiuns (Q. 58; cap. I) 2 reencontramos o conceito de que o Espírito precisa de matéria para atuar sobre a matéria. E a matéria mais elementar que ele atua é o fluido universal.
O Espírito atua sobre a matéria através do perispírito (assim como o encarnado utilizasse do corpo físico para atuar na matéria); mas, o Espírito também atua diretamente sobre o fluido universal, para produzir coisas (por meio da dilatação, da compressão, da propulsão ou das vibrações).
Na Q. 75 voltamos a encontrar que o Espírito, tanto encarnado como desencarnado, impulsionam (atuam) o fluido universal. Ele o utiliza para constituir o perispírito, condensando-o. O fluido condensado constitui o perispírito. 2 (p. 67-68)
Ainda no Livro dos Médiuns, a Q. 128 tratou da aparição de um Espírito que tinha uma tabaqueira, com a mesma forma de quando estava encarnado. Perguntou-se para São Luís, incumbido de dar as explicações, se ela era a mesma, ao que respondeu que não, tratando-se de uma imitação. Explicou que com a ajuda do princípio material, o Espírito aparenta vestir-se com roupas semelhantes às que usava quando vivo. Constituído deste princípio material, dando-lhe o formato desejado, forma os objetos. No item 4 encontramos que o Espírito dispõe, sobre os elementos materiais dispersos por todos o espaço da atmosfera, de um poder que estamos longe de suspeitar. “Ele pode concentrar esses elementos pela sua vontade e dar-lhe a forma aparente que convenha às suas intenções.”
“Resulta desta explicação que os Espíritos submetem a matéria etérea às transformações que desejam. Assim, por exemplo, no caso da tabaqueira, o Espírito não a encontrou feita, mas ele mesmo a produziu (…), por ato da sua vontade, e da mesma maneira a desfez. É isso mesmo que se dá com todos os outros objetos, como as roupas, as joias, etc.”
Continuando com as perguntas, São Luís explicou que o Espírito poderia tornar a tabaqueira tangível, tendo tabaco em seu interior, e que se alguém o tomasse espirraria.
No item 10, temos que o Espírito não só pode dar forma a um objeto, como conferir-lhe propriedades especiais.
Ele o consegue através de sua vontade, desde que Deus o permita (Item 13). E quanto mais elevado, mais facilmente o consegue (Item 15). Nem sempre o faz de forma consciente: “Muitas vezes ajuda a formá-las por uma ação instintiva, que ele mesmo não compreende.”
(Item 17) O Espírito pode tirar do elemento universal os materiais para estas produções, dando a essas coisas uma realidade temporária, com suas propriedades.”
Resumindo:
‒ O Espírito utiliza o “princípio material” (“matéria etérea”) para formar seus objetos, vestuário, etc. Por “princípio material”, leia-se: “matéria elementar”, “princípio elementar”; ou seja, “fluido elementar”.
‒ O Espírito pode concentrar a sua vontade nesses elementos (princípio material; elemento universal) e dar-lhes a forma e as propriedades (cheiro, tangibilidade, etc.) que desejar.
‒ “O Espírito pode tirar do elemento universal os materiais para estas produções, dando a essas coisas uma realidade temporária, com suas propriedades (…).”
‒ Instrumentos do Espírito para criar à partir do elemento universal: a sua vontade [O mesmo nas Q. 129 e Q. 148] e a permissão de Deus.
A questão seguinte (Q. 129) faz um resumo da Q. 128:
“O Espírito age sobre a matéria.”
“(…) tira da matéria cósmica universal os elementos necessários para formar (…) objetos.”
“Pode também operar, pela vontade, sobre a matéria elementar, uma transformação íntima que lhe dê certas propriedades [O mesmo na Q. 148].”
Na Q. 148, que trata da escrita direta, temos: “Ele próprio fabrica a matéria e os instrumentos de que há mister, tirando, para isso, os materiais precisos, do elemento primitivo universal que, pela ação da sua vontade, sofre as modificações necessárias à produção do efeito desejado.”
Dentre todas as demais obras de Allan Kardec, a última em que o tema aparece é a Revista Espírita 3. Alguns conceitos já foram coberto em outras de suas obras.
(RE – Junho, 1858) “Teoria das manifestações físicas (segundo artigo) [Espírito de São Luís].” 3 (p. 149-153)
O Espírito, quer encarnado, quer desencarnado, age sobre o fluido universal (a substância etérea que envolve os planetas).
“Pergunta 23. (…) Essa teoria das manifestações físicas [da aparição dos Espíritos, e a do movimento dado aos corpos sólidos] (…). O fluido universal, no qual reside o princípio da vida, é o agente principal dessas manifestações, e que esse agente recebe seu impulso do Espírito, quer este esteja encarnado ou errante.” 3 (p. 149-153)
(RE – Agosto, 1859) “Pneumatografia ou escrita direta [Kardec].” 3
A pneumatografia é a escrita produzida diretamente pelo Espírito, sem nenhum intermediário. Ele não se serve das substâncias que nós encarnados produzimos. O Espírito, ele mesmo, cria as substâncias e os instrumentos necessários, tirando esses materiais do elemento primitivo universal; ao qual faz sofrer, por sua vontade, as modificações necessárias ao efeito que quis produzir (escrita sobre um papel). 3
(RE – Agosto, 1859) “Mobiliário de além-túmulo.” 3
[Um passagem extraída de uma carta endereçada à Kardec, do departamento do Jura, por um dos correspondentes da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas]
O item 26 trata da ação do Espírito para modificar o elemento universal para formação de outros corpos.
O Espírito pode haurir na matéria primitiva universal os materiais para fazer outras coisas (vestimenta, cachimbo, escrita direta, etc.).
O Espírito age nesta matéria elementar (matéria primitiva universal) produzindo coisas, e dando-lhe determinadas propriedades. Não poucas vezes, fazendo-o de forma inconsciente.
Todavia, “os objetos formados pelo Espírito têm uma existência temporária, subordinada à sua vontade ou à necessidade; podem fazê-los e desfazê-los à sua vontade (…). Há formação, mas não criação, tendo em vista que o Espírito nada pode tirar do nada.” 3
(RE – Fevereiro, 1861) “Senhor Squire, médium [ Kardec]” 3
Encontramos um repeteco sobre a ação dos Espíritos sobre o fluido universal; inclusive, modificando lhe as propriedades.
“O fluido universal, assim como o chamam os Espíritos, é o veículo e o agente de todos os fenômenos espíritas; sabe-se que os Espíritos podem modificar lhe as propriedades segundo as circunstâncias; que é o elemento constitutivo do perispírito, ou envoltório semimaterial do Espírito (…)..” 3
(RE – Agosto, 1864) “Conversas familiares de além-túmulo [Grand-Pierrot (Médium, senhora Delanne)].” 3
Nesta passagem encontramos, mais uma vez, que o Espírito tem a capacidade de produzir objetos, no seu mundo, à partir do fluido cósmico; no caso específico do artigo, que ele pode fazê-lo transformando uma parte do fluido perispiritual para produzir objetos. Usando sua vontade ou unicamente pelo pensamento.
(RE – Junho, 1868) “Fotografia do pensamento.” 3
Neste artigo, Kardec reproduz uma passagem do livro da Gênese, do capítulo dos fluidos.
Encontram-se dois conceitos: (a) um dos estados do fluido cósmico constitui os fluidos espirituais, e (b) através do pensamento e da vontade, o Espírito age sobre os fluidos espirituais (que é um estado do fluido cósmico) para formar coisas.
“Os fluidos espirituais, que constituem (…) um dos estados do fluido cósmico (…). Pelo pensamento, eles imprimem a esses fluidos tal ou tal direção; aglomeram-nos, combinam-nos ou os dispersam; com eles formam conjuntos tendo uma aparência, uma forma, uma cor determinada; mudando-lhes as propriedades (…), os combinam segundo certas leis; é a grande oficina ou o laboratório da vida espiritual.” 3 (p. 166-169)
(RE – Janeiro, 1869) “Dissertações Espíritas – A música e as harmonias celestes [Espírito de Rossini (17 de janeiro de 1869 – Médium, Sr. Nivard.)] 3
Encontramos uma curiosidade: sobre os efeitos musicais que o Espírito pode produzir agindo sobre éter (ou fluido universal).
O éter vibra sob a ação da vontade do Espírito. Ele é capaz de fazer ressoar o éter produzindo os acordes da harmonia que deseja.
Fiquemos com Deus.
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1 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Edição comemorativa. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
2 KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Ou guia dos médiuns e dos evocadores.. São Paulo: Lake, 2014.
3 KARDEC, Allan. Revista Espírita. Jornal de estudos psicológicos. Coleção. 1858 a 1869.
(1858 a 1863) Araras: IDE, 1993. | (1964 a 1869) São Paulo: Edicel, s/ano.
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O autor é editor, articulista, escritor, palestrante, jornalista; responsável pelo CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br.

