EDITORIAL No 150 (Agosto, 2026) – “O exercício da mediunidade na Igreja Primitiva”
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@fabiodionisi
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Desde a época de neófitos da Doutrina Espírita, chamou-nos a atenção as manifestações mediúnicas narradas, inúmeras vezes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.
Qualquer que tenha sido a origem atribuída para elas, na Vulgata, como, por exemplo, obras do Espírito Santo, a bem da verdade elas caracterizam o que nossos confrades e confreiras conhecem como fenômenos Espíritas.
Neste artigo desejamos registrar que os efeitos mediúnicos não são exclusividade dos últimos dois séculos, mesmo no cristianismo.
Não nos reportaremos ao Velho Testamento e nem à época em que nosso Amado Mestre esteve encarnado, pois o objetivo destas linhas está focado no advento do cristianismo primitivo, após crucificação do Grande Justo; o que nos arremessa aos Atos dos Apóstolos, primeira vera descrição da vida e feitos dos Apóstolos e dos principais discípulos, após à ascensão de Jesus.
“A Igreja recém-nascida teve forte influência dos espíritos e da mediunidade de seus membros para o crescimento e expansão das primeiras comunidades cristãs.”1 (p. 79)
E Jesus não fez por menos. Para fortalecer e aumentar a fé de seus seguidores, Ele engendrou o Dia de Pentecostes, quando o dom mediúnico foi conferido à muitos dos Apóstolos e discípulos.
“(…) estavam todos reunidos no mesmo lugar; e de repente veio do céu um ruído (…); e lhes pareceram umas como línguas de fogo, as quais se distribuíram para repousar sobre cada um deles; e todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.” (Atos, 2:1-4)
Este fenômeno é denominado de xenoglossia, onde o médium, sob a ação de Espíritos, fala num idioma aparentemente estranho ao seu conhecimento presente. Essa faculdade, pela qual o médium se comunica, verbalmente ou pela escrita, por meio de uma língua que não conhece na atual encarnação, é também chamada de mediunidade poliglota.2 (cap. 38)
Sergito de Souza Cavalcanti, no capítulo “O exercício da mediunidade e a influência dos espíritos na consolidação das primeiras comunidades cristãs”, faz oportuna observação, ao afirmar que Jesus, o Cristo, com o episódio, deu início à difusão da mediunidade entre o povo; coisa que até então só ocorria em recintos fechados, reservados ou iniciáticos, sem a divulgação no mundo exterior.
Além disso, lembra que Jesus concretizou a predição do profeta Joel: “Depois disso, derramarei o meu espírito sobre todos os viventes, e os filhos e filhas de vocês se tornarão profetas; entre vocês, os velhos terão sonhos e os jovens terão visões! Nesses dias, até sobre os escravos e escravas derramarei o meu espírito! Farei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça.”3 (Joel, 3-1:3)
Esta mesma passagem foi mencionada por Simão Pedro, por ocasião do Dia de Pentecostes.
“Pedro pondo-se de pé, com os onze, levantou a sua voz e lhes declarou: Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas minhas palavras. Pois esses {homens} não estão embriagados, como vós supondes (…). Mas isto é o que foi dito através do Profeta Joel: E será {que} nos últimos dias, diz Deus, derramarei do meu espírito sobre toda carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão (…).” (Atos 2:14-17)
Também não podemos esquecer de incluir três das advertências feitas por Paulo, em suas Cartas.
— “Procurem o amor. Entretanto, aspirem aos dons do Espírito, principalmente à profecia. Pois aquele que fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus. Ninguém o entende (…), mas aquele que profetiza fala aos homens: edifica, exorta, consola (…). Eu desejo que vocês todos falem em línguas, mas prefiro que profetizem.” (I Co. 14:1-5)
— “Quando vocês estão reunidos, cada um pode entoar um canto, dar um ensinamento ou revelação, falar em línguas ou interpretá-las (…). Se existe alguém que fale em línguas, falem dois ou no máximo três, um após o outro. E que alguém as interprete (…). Quanto aos profetas, que dois ou três falem, e os outros profetas deem o seu parecer (…). Vocês todos podem profetizar, mas um por vez, para que todos sejam instruídos e encorajados. Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas.” (I Co. 14:26-32)
— “Conheço um homem em Cristo, que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu. Se estava em seu corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe. Sei apenas que esse homem (…) foi arrebatado até o paraíso e ouviu as palavras inefáveis, que não são permitidas ao homem repetir.” (II Co. 12:1-4)
Nas duas primeiras passagens, dois fenômenos mediúnicos são citados: Xenoglossia, e Profetismo.
Como acabamos de comentar sobre o primeiro (xenoglossia), passemos ao segundo.
Quanto à ele, acreditamos que realmente careça de alguns comentários adicionais. E deixemos essa tarefa para Emmanuel: “Altamente confortado, o ex-doutor da Lei [Paulo] procurou enriquecer a igreja de Corinto de todas as experiências que trazia da instituição antioquense (…). Diariamente, à noite, havia reuniões para comentar uma passagem da vida do Cristo; em seguida à pregação central e ao movimento das manifestações de cada um, todos entravam em silêncio, a fim de ponderar o que recebiam do Céu através do profetismo (…). O mediunismo evangelizado, dos tempos modernos, é o mesmo profetismo das igrejas apostólicas.”4 (cap. 7; p. 427)
Na lide Espírita, o que acabamos de transcrever é conhecido como psicofonia; embora, saibamos que também ocorressem fenômenos de voz direta.
Segundo nosso querido Mestre Lionês, a psicofonia é um dom conferido por Deus aos médiuns falantes.5 (p. 152)
Já no terceiro episódio, encontramos o dom do desdobramento. Contudo, nem sempre o desdobramento pode ser considerado um fenômeno mediúnico.
Como nos ensina Hermínio C. Miranda, em Diversidade dos Carismas6, este pode: (a) ser um fenômeno puramente anímico, (b) constituir-se num fenômeno anímico nos quais ocorrem atividades mediúnicas, (c) ser uma precondição ao trabalho mediúnico.
Quanto ao primeiro, aprendemos com André Luiz que à noite 75% dos encarnados entram nas zonas de contato com os desencarnados, para o bem, ou para o mal.7 (cap. 6; p. 80)
Por isso, o desdobramento é um fenômeno bastante comum, embora em vigília poucos se recordem destas atividades noturnas. O que não é de se estranhar, pois as impressões são colhidas diretamente pelo Espírito, não passando pelo sistema físico sensorial.6 (cap. 5; p. 169)
Quanto à utilização mediúnica da faculdade anímica, no mundo espiritual, encontramos na obra de André Luiz: Nos domínios da mediunidade, cap. 11, que o médium é magnetizado para ser desdobrado; em seguida são retirados os fluidos vitais de seu períspirito, para garantir o equilíbrio da alma, para então entrar em tarefa mediúnica (ex.: acompanhar a equipe espiritual em um resgate remoto).
Como uma precondição ao trabalho mediúnico, tanto a teoria quanto a prática nos ensinam que o Espírito do Médium, geralmente, é desdobrado para facilitar a manifestação do espírito comunicante.6 (cap. 5)
Sinceramente, amados leitor e leitora, só não aceita que a mediunidade era um fato corriqueiro naquela época, e que os Apóstolos e os discípulos do Cristo falavam e exerciam a mediunidade, quem não quer enxergar uma sacrossanta verdade…
Fiquem em Paz!
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1 CAVALCANTI, Sergito de Souza. A casa do caminho, e os primeiros cristãos. Santa Luzia: Editora Cristo Consolador, 2008.
2 PERALVA, Martins. Estudando a mediunidade. 23. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
3 Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.
4 XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estevão. Episódios históricos do Cristianismo primitivo. Pelo Espírito Emmanuel. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1972.
5 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. São Paulo: Petit, 2004.
6 MIRANDA, Hermínio C. Diversidade dos carismas. Teoria e prática da mediunidade. Volume I. Niterói, RJ: Arte e Cultura, 1991.
7 XAVIER, Francisco Cândido. Libertação. Pelo André Luiz. 13. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1987.
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O autor é presidente do CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br

