Criação Divina segundo a Codificação Kardequiana. Uma abordagem científica.

[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br

Caros leitores, há algum tempo estamos nos concentrando no estudo científico sobre o éter cósmico (fluido universal) à partir dos livros basilares da Doutrina Espírita, conhecidos como Pentateuco Kardequiano, codificados por Allan Kardec; a saber:

1) Livro dos Espíritos. 1

2) O livro dos médiuns, ou guia dos médiuns e dos evocadores. 2

3) Evangelho segundo o Espiritismo. 3

4) O Céu e o inferno, ou a justiça de Deus segundo o Espiritismo. 4

5) A gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. 5

Para, em seguida, pesquisarmos a Revista Espírita. Jornal de estudos psicológicos 6, publicada entre 1858 e 1869.

Vinculado ao tema, surgiu material à respeito da Criação Divina, o que é natural uma vez que o éter cósmico (fluido elementar) tem como origem o Criador.

Deste material, sempre com o foco voltado ao éter cósmico, procuraremos abstrair algumas lições.

No LE – Q. 21, estudamos que somente Deus sabe quando a matéria foi criada, e, daí, desconhecemos o princípio do éter, por outro lado nos faz refletir que Deus deve tê-la criada sempre, ou seja, não houve um início! “A matéria existe de toda a eternidade, como Deus, ou foi criada por Ele em certo momento? — “Só Deus o sabe. Entretanto, há uma coisa que a razão vos deve indicar: é que Deus (…) nunca esteve inativo. (…) podereis concebê-lo um segundo que seja na ociosidade?” 1

No mesmo Livro dos Espíritos, Q. 27, encontramos que existem dois elementos gerais do Universo: a matéria e o espírito. “Sim, e acima de tudo Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Esses três elementos constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal.” 1 Portanto, Deus criou o Espírito e a matéria, dois elementos distintos.

Tomemos o Espírito. Na época, os próprios comunicantes disseram que a natureza íntima do ser pensante (Espírito lhes era inteiramente desconhecida. Encontra-se no LM – Q. 58: “A natureza íntima do Espírito propriamente dito, isto é, do ser pensante, é para nós inteiramente desconhecida.” 2

Sobre o mesmo tema, eles já haviam adiantado que não era fácil analisá-la (LE – Q. 23a); mormente por conta de nossa linguagem. Por não ser algo apalpável, para nós ele não é nada; mas que, para eles, era alguma coisa, complementando que “coisa nenhuma é o nada e o nada não existe.”1

Qual a natureza íntima do Espírito? — Não é fácil analisar o espírito com a vossa linguagem. Para vós, ele não é nada, visto não ser uma coisa palpável; mas, para nós, é alguma coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe.” 1

Mais tarde, na GE – Cap. IX, item 6, Kardec registraria que o princípio espiritual não provem do elemento cósmico universal; caso contrário, ele estaria sujeito as vicissitudes da matéria (agregação e desagregação), o que não ocorre. Em outras palavras, Deus criou o princípio inteligente e o princípio material (elemento cósmico universal); ambos princípios provêm da mesma fonte, mas, um não decorre do outro… 3

As últimas questões deixam bem claro que o Espírito não provém do fluido elementar, princípio da matéria.

Já que falamos nele, no LM – Q. 74 (itens I e II), encontramos interessante afirmativa: o fluido universal não é uma emanação da divindade; mas é criação de Deus.

Emanar, caro leitor, refere-se a originar-se ou ser proveniente de algo, como uma energia, um odor ou uma sensação [há uma perda de alguém ou de algo], enquanto criar envolve a ação de produzir algo novo, a partir do nada ou de elementos preexistentes.

 “I. O fluido universal é uma emanação da Divindade? — Não.” “II. É uma criação da divindade? — Tudo foi criado, exceto Deus.”

Um segundo ponto extraído desta mesma Q. 74, é que não podemos concluir que, na obra de Allan Kardec, este termo “fluido universal” se refira somente ao material primeiro da criação Divina.

Embora no seu item III (Q. 74) diga: que o fluido universal é o próprio elemento universal. O princípio elementar de todas as coisas [“O fluido universal é o próprio elemento universal? — Sim, é o princípio elementar de todas as coisas.”], na mesma questão, no item V, encontramos que ele se modifica, mas continua recebendo a mesma designação: “Como o fluido universal se nos apresenta na sua maior simplicidade? — Para encontrá-lo na simplicidade absoluta, seria preciso remontar aos Espíritos puros. No vosso mundo, ele está sempre mais ou menos modificado, para formar a matéria compacta que vos rodeia. Podeis dizer, entretanto, que ele mais se aproxima dessa simplicidade no fluido que chamais fluido magnético animal.” Portanto, ele se modifica, mas continua recebendo a mesma designação. Tanto que, por exemplo, no LE – Q. 94 1 podemos ler: “fluido universal de cada globo. É por isso que ele [perispírito] não é o mesmo em todos os mundos” . A terminologia continua sendo a mesma…

Outro aprendizado interessante está no LM – Q. 75: 2 o fluido universal contém o princípio da vida (pertinente a matéria; como, por exemplo, perispírito, corpo físico, plantas, corpo dos animais, etc.). O fluido universal é a fonte da vida [“(…) o fluido universal, que encerra o princípio da vida.”]; mas, só anima a matéria, não sendo, todavia, a fonte da inteligência.

É, exatamente, no item VI do LM – Q. 74 que afirma que o fluido universal é a fonte da inteligência, mas que não é a fonte da inteligência; ele só anima a matéria. 2

(LM – Q. 74) VI. Afirmou-se que o fluido universal é a fonte da vida: seria ao mesmo tempo a fonte da inteligência? — “Não, esse fluido só anima a matéria.” 2

Sobre a criação, um dos materiais mais fartos e importante, na obra kardequiana, pode ser encontrado na GE – Cap. VI, item 15 [fonte: Galileu].

“O começo absoluto das coisas remonta, pois, a Deus. As sucessivas aparições delas [coisas] (…) constituem a ordem da criação perpétua. (…) que se desdobraram nesses tempos antigos, em que nenhuma das maravilhas do Universo atual existia; nessa época primitiva em que, tendo-se feito ouvir a voz do Senhor, os materiais que no futuro haviam de agregar-se por si mesmos e simetricamente, para formar o templo da Natureza, se encontraram de súbito no seio dos vácuos infinitos (…). O mundo, no nascedouro, não se apresentou (…) na plenitude da sua vida, não. O poder criador nunca se contradiz e, como todas as coisas, o Universo nasceu criança. Revestido das leis mencionadas acima e da impulsão inicial inerente à sua formação mesma, a matéria Cósmica primitiva fez que sucessivamente nascessem turbilhões, aglomerações desse fluido difuso, amontoados de matéria nebulosa que se cindiram por si próprios e se modificaram ao infinito para gerar, nas regiões incomensuráveis da amplidão, diversos centros de criações simultâneas ou sucessivas.

Em virtude das forças que predominaram sobre um ou sobre outro deles [centros] e das circunstâncias ulteriores que presidiram aos seus desenvolvimentos, esses centros primitivos se tornaram focos de uma vida especial: uns, menos disseminados no espaço e mais ricos em princípios e em forças atuantes, começaram desde logo a sua particular vida astral; os outros, ocupando ilimitada extensão, cresceram com lentidão extrema, ou de novo se dividiram em outros centros secundários [Galileu]

Resumindo, temos que o começo absoluto das coisas remonta, pois, a Deus. Sua criação é perpétua; mas, segundo este item da Gênese, teve um princípio.

Lá atrás, houve uma época em que nada existia neste Universo. Repentinamente, os materiais que haveriam de se agregar (por si mesmos e simetricamente) para formar toda Natureza, encontraram-se (apareceram) de súbito no seio dos vácuos infinitos.

Neste momento, Deus fez com que iniciasse a formação das coisas no Universo.

O Universo não surgiu feito, nasceu como uma criança nasce; porém, já possuidor (a) das leis necessárias e (b) com a impulsão inicial inerente à sua formação mesma. A matéria cósmica primitiva fez que sucessivamente nascessem turbilhões, aglomerações desse fluido difuso, amontoados de matéria nebulosa que se agregaram (por si próprios; sem um agente externo atuando; já era inerente nela mesma) e se modificaram ao infinito para gerar diversos centros de criações (simultâneas ou de forma sucessivas).

Reparem: a matéria cósmica primitiva criou (movida pelas suas leis e impulso próprio) turbilhões, aí se criaram (a) fluidos difusos e (b) aglomerações de matéria sutil, que se modificaram até formarem, por sua vez, centros de criação.

Em função (a) das forças que predominaram no momento (uma sobre outras) e (b) de circunstâncias (eventos e condições) que ocorreram depois, que direcionaram aos seus desenvolvimentos, esses centros primitivos se tornaram focos de uma vida especial [não é no sentido biológico]: (1) alguns, mais concentrados e mais ricos em princípios e em forças atuantes, começaram desde logo a sua particular vida astral; enquanto (2) outros, muito disseminados/espalhados no espaço, (2a) cresceram com extrema lentidão, ou (2b), de novo, dividiram-se em outros centros secundários [de criação].

Caros leitores, esperamos que tenham apreciado, até este ponto. Mas, ainda temos mais material sobre a Criação Divina. Como por exemplo que o Espírito também pode cocriar.

No longo texto do LM – Q. 128, temos que os instrumentos do Espírito para criar à partir do elemento universal são a vontade e a permissão de Deus. Podemos dizer que Deus principia e o Espírito dá continuidade à obra do Pai, cocriando à partir do elemento universal criado por Ele. 2

Na Gênese, graças as comunicações transcritas de Galileu, encontramos muito material relacionado às nossas pesquisa. Tanto que, mais uma vez, até aqui, na GE – Cap. VI, item 18, sobre a matéria cósmica primitiva, temos: “(…) compenetremos dessa noção: que a matéria cósmica primitiva era revestida, não só das leis que asseguram a estabilidade dos mundos, mas ainda do princípio vital universal que forma gerações espontâneas [geração espontânea] sobre cada mundo, à medida que se manifestam as condições da existência sucessiva dos seres, quando soa a hora da aparição dos filhos da vida, durante o período criador.” 1

Deste texto, sobre a matéria cósmica primitiva, podemos registrar que ela é revestida: (a) das leis [contém as leis] que asseguram a estabilidade dos mundos, (b) do [contém o] princípio vital universal. Este princípio vital forma gerações espontâneas, quando existem as condições para isso (que as condições permitam que a espécie possa ter continuidade/multiplicar-se) e no momento em que surge o período criador (a geração espontânea ocorre nos períodos iniciais; por exemplo, na Terra já não ocorre mais, pois não é mais necessária).

Isso ocorre somente quando as condições permitem e soa a hora da criação (durante o período da criação, num dado orbe).

Geração espontânea: quem a provoca é o fluido cósmico universal (matéria cósmica). Nele reside o princípio vital que dá nascimento à vida dos seres… e a perpetua sobre cada globo.

Completando o item anterior, na própria GE – Cap. VI, item 18, encontramos que : “Assim se efetua a criação universal. Portanto, é verdadeiro dizer que, sendo as operações da Natureza a expressão da vontade divina, Deus sempre tem criado, cria sem cessar, e criará sempre.”

O princípio da criação é universal (acabamos de descrever o processo).

O que acontece na Natureza (o fluido cósmico primitivo contém as leis e o princípio vital universal, inerentes ao processo de criação) é expressão da vontade de Deus; e que Deus sempre criou e continuará a criar.

À exemplo do LM – Q. 74, quando encontramos que o fluido universal não é uma emanação da divindade, mas, sim, uma criação de Deus, isso também é dito na RE – Junho, 1858, no artigo: Teoria das manifestações físicas, sobre o fluido universal (a substância etérea que envolve os planetas, temos que ele não é uma emanação de Deus, mas Sua criação.

Vejamos agora a RE – Novembro, 1859, o artigo: Fragmentos de um poema Espírita do senhor de Porry.

Primeira passagem: “Tudo repousa nele [Deus]: a matéria e o Espírito; que vos retire seu sopro… e o Universo perece.”

Caso este Hálito Divino parasse de verter, tudo acabaria; como que se ele tivesse que ser emitido continuamente para sustentar o que já existe (lembrando que, além de sua função criadora, a de continuar a criar continuamente).

Segunda passagem: “É ele [Deus] quem nos anima e quem move nossos órgãos; é ele quem pensa em nós; todos os seres diversos.”

No nosso modo de ler as palavras, interpretamos que Deus age em nós (anima nosso corpo e possibilita que pensemos) através do fluido cósmico que disponibiliza em todo o Universo. Vimos que o fluido vital é uma transformação do fluido elementar. E é ele que anima o nosso corpo.

Nós assimilamos o fluido cósmico e o usamos para verter o nosso pensamento.

“O homem desencarnado verte de sua alma um fluido vivo, multiforme, ardente, incessante, que pode ser considerado como um subproduto do fluido cósmico que foi assimilado.” 7 (p. 147)

Explicação, esta, de um estudo realizado pela AME de São Paulo, sobre a frase de André Luiz: “Esse fluído é o seu próprio pensamento contínuo [do homem], gerando potenciais energéticos com que não havia sonhado.” 7 (cap. 13; p. 96)

Terceira passagem: “O Eterno tira tudo de sua própria natureza, mas não se confunde com a sua criatura (…). Obra de seu Pensamento, obra de sua Palavra, cada criação de seu seio parte… e voa, num círculo traçado por inflexíveis leis (…). Como o artista, Deus pensa antes de produzir.”

Ele tira de sua natureza, tanto que verte o Hálito Divino. Do Hálito Divino se cria toda a matéria; mas, a matéria não é Ele; por isso que Deus não pode ser confundido com a Sua criação; assim, como a Sua criatura não é parte Dele.

Todo o processo de criação inicia com o “pensamento”; toda “obra” é decorrência de um pensamento, neste caso, o de Deus.

Obra de sua palavra: obra do “verbo criador”.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João 1:1).”

Cada criação provém, transformação por transformação, do princípio elementar, oriundo do Hálito Divino (fluido elementar) 8 (cap. 4; p. 43.

Este fluido elementar contém as propriedades e leis (inflexíveis) que o orientam no seu processo criador.

 Quarta passagem: “Ora, fonte inesgotável de seres indiferentes e de globos semeados no imenso Universo, Deus, a Força sem freio, de sua Vida eterna: às suas criações transmite uma centelha.”

Deus cria tudo: matéria e Espírito.

A primeira etapa do processo criador é o “pensamento” (algo surge no pensamento). Que se transforma (segunda etapa do processo criador) em algo que é criado (toma uma forma, um corpo).

Transmite à tudo que cria uma centelha da vida. Tudo tem vida, vegetal, animal e humana, inclusive a própria matéria (toda forma de movimento nos átomos, não é também vida?). Tudo que tem movimento, mesmo que somente internos (vibração, translação, rotacional), tem vida…

O Verbo jorra de sua Onipotência: “O livro ou o quadro pelo artista inventado, produto inerte, jaz na imobilidade, mas o Verbo jorra de sua Onipotência, Dele se destaca e se move em sua própria existência, sem cessar ele se transforma e jamais perece.”

À princípio pensamos tratar-se do Hálito Divino [matéria elementar; fluido elementar], mas se trata do princípio inteligente, como constataremos nos próximos parágrafos. O Verbo [princípio inteligente] jorra de Deus; e torna-se algo separado de Deus (se destaca); e é imortal (sempre existirá).

O Verbo [princípio inteligente] tem existência (vida) própria; ou seja, ele é dotado de propriedades que o conduz, o direciona e se transforma [evolui] sempre.

Verbo Criador se eleva do mineral para a planta, desta para o animal e, por fim, desperta no homem: “Do inerte metal se elevando ao Espírito, o Verbo criador na planta dormita, sonha no animal, e no homem desperta; de grau em grau, descendo e subindo [tanto para cima como para baixo], da Criação o conjunto radioso, sobre as ondas do éter forma uma cadeia imensa que o arcanjo termina, que a pedra começa”.

Na sua caminhada, desde o mineral até o hominal e, por fim, o arcanjo, ou seja, pelo reino mineral, vegetal, animal, hominal, chegando ao angelical.

Quando comparamos esta frase: com a passagem em O problema do ser, do destino e da dor (Léon Denis), concluímos, mais uma vez, que o Verbo criador deve ser a inteligência: “A lei do progresso não se aplica somente ao homem; é universal. Há, em todos os reinos da Natureza, uma evolução que foi reconhecida pelos pensadores de todos os tempos. Desde a célula verde, desde o embrião errante, boiando à flor das águas, a cadeia das espécies tem-se desenrolado através de séries variadas, até nós. Cada elo dessa cadeia representa uma forma da existência que conduz a uma forma superior, a um organismo mais rico, mais bem adaptado às necessidades, às manifestações crescentes da vida; mas, na escala da evolução, o pensamento, a consciência e a liberdade só aparecem passados muitos graus. Na planta a inteligência dormita; no animal ela sonha; só no homem acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente; a partir daí o progresso, de alguma sorte fatal nas formas inferiores da Natureza, só se pode realizar pelo acordo da vontade humana com as leis Eternas.” 9 (pt. I; cap. IX; p. 122-123)

“Sobre as ondas do éter” – Minha leitura: esta caminhada toda ocorre no meio do éter (que, como vimos, encontra-se em tudo e em todo lugar; tudo está imerso nele).

“De grau em grau, descendo e subindo”: tanto para cima como para baixo.

Na RE – Novembro, 1861, no artigo: O fluido universal, encontramos que  “o fluido universal liga entre si todos os mundos; e, segundo as correntes que lhe são imprimidas pela vontade do Criador, dá todos os fenômenos da criação.” Aqui temos, por exemplo, que como ele preenche todo o Universo, estando em tudo, ele acaba sendo um meio de ligação entre todos os orbes.

De acordo com a vontade de Deus, é através do fluido universal que ocorrem todos os fenômenos da criação (matéria). Toda a matéria é criada a partir dele; e, mais ainda, ele é que cria cada uma delas, à partir do comando de Deus.

Este comando de Deus tanto poderia ser: (1) de forma espontânea, pois ele tem propriedades que o levam a realizar isso [Deus lhes imputou (conferiu) leis], ou (2) diretamente da vontade do Pai, que atua sobre ele quando assim o deseja.

Quanto ao item (1), relembremos o que já estudamos:

(a) “É ele que é a própria vida, e que liga as diferentes matérias do nosso globo.” (RE – Novembro, 1861. O fluido universal).

(b) “(…) compenetremos dessa noção: que a matéria cósmica primitiva era revestida, não só das leis que asseguram a estabilidade dos mundos, mas ainda do princípio vital universal que forma gerações espontâneas [geração espontânea] sobre cada mundo, à medida que se manifestam as condições da existência sucessiva dos seres, quando soa a hora da aparição dos filhos da vida, durante o período criador.” (GE – Cap. VI, item 18. A criação universal)

Pelo item (a) acima, podemos dizer (hipótese de trabalho) que, pelo fato de que as coisas decorrem dele [fluido universal], pela vontade Divina, “ele é a própria vida”

Curiosa afirmação é esta: “que liga as diferentes matérias do nosso globo.”

Poderíamos ter alguns sentidos, a respeito: (i) ele está presente em todo lugar, por isso, seria o meio de ligação (o que nos parece simplista…) e (ii) é agente de ligação (aglutinação) da matéria (que provoca sua constituição na forma de um agregado, como é o caso, por exemplo, de uma rocha).

Na RE – Março, 1866 – Introdução ao estudo dos fluidos espirituais (Item VII), Kardec escreveu: Moisés acrescenta: ‘E lhe deu uma alma viva, feita à sua semelhança’. Ele fez assim uma distinção entre a alma e o corpo; indica que ela é de uma natureza diferente, que não é matéria, mas espiritual e imaterial como Deus (…). Estas palavras: à sua semelhança, implicam em uma similitude e não uma identidade. Se Moisés tivesse considerado a alma como uma porção da Divindade, teria dito: Deus o anima dando-lhe uma alma tirada de sua própria substância, como disse que o corpo fora tirado da terra (…).”

Perceba que há uma distinção entre Espírito e corpo: enquanto o Espírito é espiritual e imaterial, o corpo é matéria e ponderável.

Na Doutrina Espírita aprendemos que Deus criou o Espírito e a matéria; portanto, duas coisas distintas (diferentes).

Quanto à alma ser semelhante a Deus, temos que são duas coisas diferentes. Não fomos feitos da substância do Criador; nada foi tirado Dele.

Assim, concluímos esta tema; mas, sem deixar de registrar que é muito interessante o nível de informação recebida à respeito da Criação Divina, já no século XIX!

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1 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. edição comemorativa. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2007.

2 KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Ou guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de J. Herculano Pires. 29. ed. São Paulo: Lake, 2014.

3 Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires. 83. ed. São Paulo, SP: Lake, 2020.  

4 KARDEC, Allan. O céu e o inferno, ou Justiça Divina segundo o Espiritismo. Tradução de João Teixeira de Paula e J. Herculano Pires. 10. ed. São Paulo, SP: Lake, 2002.

5 KARDEC, Allan. A gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução  de J. Herculano Pires. 16. ed. São Paulo, SP: Lake, 1989.

6 KARDEC, Allan. Revista Espírita. Jornal de estudos psicológicos. Coleção. 1858 a 1869. Tradução de Salvador Gentile. Araras: Instituto de Difusão Espírita, 1993.

7 Boletim Médico-Espírita No 5. Ciclo de estudos sobre a obra “Evolução em dois mundos”. Apresentada pelo Dr. Paulo Bearzoti. Outubro de 1987. Associação Médico-Espírita de São Paulo. São Paulo: Associação Médico-Espírita, 1987.

8 XAVIER, Francisco Cândido. Mecanismos da Mediunidade. Ditado pelo Espírito André Luiz. 10. ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987.

9 DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 15.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1989.

2 comentários em “Criação Divina segundo a Codificação Kardequiana. Uma abordagem científica.

  • 17 de agosto de 2025 em 09:09
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    Não fica apenas nos 5 livros a obra de kardec, temos também o livro o que é o espiritismo e obras póstumas, não podemos esquecer que existe 12 revistas espírita que tem como objetivo completar, e todas são obras fundamentais da doutrina espírita, sem contar outras obras escritas por esse homem que teve uma brilhante missão.

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    • 17 de agosto de 2025 em 18:24
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      Boa tarde, Joselito. De fato, havia me disposto a cobrir o pentateuco e a Revista Espírita, como de fato o fiz (leia o artigo que constatará que consultei toda a Revista Espírita); mas, foi excelente tua dica de incluir também Obras Póstumas; tanto que tem um tópico sobre a criação. Ao ler este item, hoje, constatei que tudo já se encontra em O livro dos Espíritos e A Gênese. Quanto à obra O que é o Espiritismo?, vou consultar durante os próximos dias, o tema “criação Divina”. Imagino que também deva estar nas obras basilares; mas é sempre bom dar uma olhada.
      Um forte abraço e obrigado,
      Fabio

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