Médiuns Proféticos. O futuro já existe?
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br
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Caros leitores, o tempo já existe?
Iniciemos definindo o médium profético, aquele capaz de receber uma revelação de um evento que ainda vai acontecer.
De acordo com O livro dos médiuns, codificado por Allan Kardec, os médiuns proféticos são uma “variedade de médiuns inspirados ou de pressentimento que recebem, com a permissão de Deus e com maior precisão que os médiuns de pressentimento, a revelação de ocorrências futuras de interesse geral, que estão encarregados de transmitir aos outros para fins instrutivos.” 1 (p. 163)
Esta mesma passagem pode ser encontrada também em Obras Póstumas, na Primeira parte, em Manifestações dos Espíritos, item VI (Dos médiuns), sub item 49 (Médiuns proféticos). 2 (p. 60-61)
O Mestre Lionês continua escrevendo que se encontramos verdadeiros profetas, também existem os falsos profetas, e que estes seriam em maior número, tanto os que tomam como revelação aquilo que não passa de fantasia da própria imaginação, quanto, o que é pior, os mistificadores movidos pela ambição. 1 (p. 163)
Na edição de O livro dos médiuns, que adotamos, encontra-se uma nota, no próprio texto: “Ver no 624 de O livro dos Espíritos sobre as características do verdadeiro profeta.” 1 (p. 163)
Na referida questão Q. 624, Allan Kardec fez a seguinte pergunta aos Espíritos encarregados de passar a Codificação Espírita: “Qual o caráter do verdadeiro profeta? — O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Podeis reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos seus atos. Deus não pode servir-se da boca do mentiroso para ensinar a verdade.” 3 (p. 364)
O fenômeno mediúnico, propriamente dito, pode ser explicado até de forma técnica.
Segundo opinião de Hermínio Côrrea Miranda (1920-2013), em Diversidade dos Carismas, volume I, trata-se de pessoas que tem o dom de irem até o futuro e voltarem trazendo o que viram, uma vez que “os eventos já existem e nós apenas passamos por eles.” 4 (p. 134)
Obviamente, caro leitor e querida leitora, na opinião de Miranda; bastante plausível, ao nosso ver…
Sobre os eventos já existirem e nós passarmos por eles, segundo o Hermínio C. Miranda, esta teoria era compartilhada com (a) o matemático, escritor, físico, inventor, filósofo e teólogo francês Blaise Pascal (1623-1662), (b) o engenheiro, filósofo e escritor irlandês J. W. Dunne (1875-1949) e (c) o cientista, físico e escritor inglês Oliver Joseph Lodge (1851-1940). 4 (p. 134)
Como estudiosa do fenômeno, também cita Dra. Louise Rhine, em Canais ocultos da mente 5. Miranda escreveu que, nesta obra, encontram-se relatos confiáveis de pessoas que viram, em minúcias, o que aconteceu dias ou meses no futuro.4 (p. 134)
Nosso confrade, infelizmente não mais entre nós, prossegue dizendo que os Profetas foram capazes de irem até o futuro, superando séculos e até milênios, e voltarem para relatar o que viram; mas, nem sempre com a perfeita compreensão do que constataram. 4 (p. 134)
Sua teoria está explicada em outra sua monumental obra: A memória e o tempo. 6
Para chegarmos a ela, Miranda inicia com uma teoria revolucionária lançada em 1927, pelo engenheiro e matemático inglês J. W. Dunne. De acordo com seu pensamento, “não é o tempo que passa por nós e sim nós é que passamos pelo tempo, e é precisamente a nossa viagem através da dimensão temporal que nos proporciona a ilusão do movimento.” 6 (p. 14)
O pensamento de J. W. Dunne, encontra-se registrado em An experiment with time 7.
Se passamos pelo tempo, em outras palavras, significa que ele já existe. Nesta viagem, estaríamos tomando conhecimento de algo que sempre existiu (futuro). E vamos armazenando em nossa memória eventos que nos eram desconhecidos, uma vez que faziam parte do futuro.
O futuro já existe? Pergunta Hermínio C. Miranda. Ele mesmo responde e de forma inequívoca.
“Aquilo a que chamamos futuro, no entanto, não pode conter surpresas e imprevistos para Deus, suprema inteligência criadora: seria o caos. E se Deus conhece tal realidade — e não há como fugir disso —, ela já existe.” 6 (p. 16)
Axioma (a) interessante e que não podemos refutar…
Miranda prossegue dizendo que não é difícil imaginar que, mesmo contidos numa dimensão que nos aprisiona, vez por outra, sob condições especiais, o ser humano poderia superar esta limitação e “viajar até a realidade passada, tanto quanto à realidade futura.” É o que parece indicar inúmeras observações já realizadas. 6 (p. 16)
Sobre as profecias, Miranda escreveu que em todos os tempos existiram indivíduos dotados de faculdades tais que foram capazes de saltar barreiras dimensionais, penetrando realidades ocultas. Em que este fenômeno é atualmente conhecido como “estados alterados de consciência”. 6 (p. 18)
“Um desses estados, que produz uma espécie de brecha nas barreiras dimensionais, é o sonho.” 6 (p. 18)
Voltando a J. W. Dunne, seu trabalho envolveu os sonhos. Muitas vezes, ao longo da sua vida, teve sonhos com indícios de acontecimentos futuros, tanto que desenvolveu uma teoria dos sonhos. (b)
O insight surgiu com dois sonhos, como transcrito a seguir: 6 (p. 18)
Ambos, podem ser explicados, por exemplo, através do desdobramento do perispírito, não sendo necessariamente relacionados com viagens ao futuro; mas, à partir daí, ele começou a observar os seus sonhos, de forma mais detalhada.
Para lembrar-se melhor dos sonhos, fez um treinamento auto sugestivo; isso possibilitou-o anotá-los ao acordar, antes que os esquecesse. Com o passar do tempo, confirmou-se que a partir dos sonhos poderia entrar em contato com eventos futuros.
E se alguém entra em contato com eventos futuros, significa que eles já existem hoje, mas lá no futuro!
“A todo momento, seres humanos iguais a nós estão escapando pelas malhas da dimensão em que vivem para uma incursão na que se segue. Não apenas profetas, médiuns, místicos e seres desligados da realidade (…).” 6 (p. 24)
Espero terem achado este tema interessante.
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(a) Axioma: 1. “Filos. Premissa imediatamente evidente que se admite como universalmente verdadeira sem exigência de demonstração (…). 3. Lóg. Proposição que se admite como verdadeira porque se podem deduzir as proposições de uma teoria ou de um sistema lógico ou matemático.” 8
(b) Sobre a Teoria dos Sonhos de J. W. Dunne, consultar Robert van de Castle, Our Dreaming Mind (New York, Ballantine Books, 1994), p. 8.
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1 KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de J. Herculano Pires. 29. ed. São Paulo, SP: LAKE, 2014.
2 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 13 ed. São Paulo, SP: Lake, 2005.
3 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 3. ed. edição comemorativa. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2007.
4 MIRANDA, Hermínio C. Diversidade dos carismas. Teoria e prática da mediunidade. Volume I. Niterói, RJ: Arte e Cultura, 1991.
5 RHINE, Louisa E. Hidden Channels of the Mind. William Morrow and Company Inc., 1961.
6 MIRANDA, Hermínio C. A memória e o tempo. 3. ed. Niterói, RJ: Arte e Cultura, 1991.
7 DUNNE, J. W. An experiment with time. Connecticut, US: Martino Fine Books, 2019.
8 FERREIRA, Aurélio B. de H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Curitiba: Editora Positivo, 2009
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O autor é editor, articulista, escritor, palestrante, jornalista; responsável pelo CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br.

