EDITORIAL No 140 (Outubro, 2025) – “Um sábio da antiguidade vos disse: Conhece-te a ti mesmo.”
Editor responsável: Fabio Dionisi
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br
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Queridos leitores, confessamos nossa admiração por Aurélio Agostinho; mais conhecido, entre os cristãos, como Santo Agostinho (354-430 d.C.).
Considerado um dos maiores expoentes do pensamento cristão, foi mestre de retórica, escritor fecundo, teólogo e filósofo. Pagão, converteu-se ao cristianismo em 386. Batizado em 387, tornou-se Bispo de Hipona em 396. Em 1298, o Papa Bonifácio Otávio lhe concedeu o título de Doutor da Igreja.
Incontestavelmente, Aurelius Augustinus foi um daqueles que se inseriram dentre os grandes da História. Não a dos conquistadores, que deixaram seu rastro de sangue e de destruição, não a dos pensadores que desviaram seus prosélitos do verdadeiro caminho da redenção, mas entre aqueles que visaram sua redenção e à dos demais.
Por este motivo, decidimos escrever mais um artigo sobre ele.
Contudo, não mais o do Santo da 2ª Revelação, e sim o das mensagens mediúnicas, no advento da 3ª Revelação.
Consistente em seus propósitos, eis que o encontraríamos novamente, desencarnado, séculos adiante, relatando a constante busca pela sua melhoria e da forma como lograva realizá-la.
“Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal? — Um sábio da antiguidade vos disse: Conhece-te a ti mesmo (…). Qual o meio de consegui-lo? — Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma (…). Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar (…). As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado. O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual (…). Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, inquiri como a qualificaríeis, se praticada por outra pessoa (…). Dê balanço no seu dia moral (…).” LE Q919
A busca do conhecimento e da verdade são duas forças atuantes no homem. Somos compelidos a tais buscas, e uma das razões é porque somos regidos pela Lei Divina do Progresso, em nós depositada pelo Criador, por ocasião de nossa criação.
O homem cogita, e quem pensa, questiona, quer saber; e quer saber certo. Enfim, busca o conhecimento e a verdade.
No seu íntimo, mesmo que inconsciente, o homem sabe do seu Criador e para que destino ele foi criado. E este conhecimento está indelevelmente registrado no Espírito, a espera que seja reencontrado.
Nos primeiros estágios da jornada, impulsionado pela necessidade do atendimento às necessidades básicas, é unicamente guiado pelos instintos de sobrevivência: pessoal e da espécie. Caminha sem noção, sem se atentar para aquilo que realmente é importante na vida; a razão de ser da sua existência.
O apego às coisas da matéria, à gratificação que obtêm no atendimento das necessidades prementes, os prazeres que os mesmos proporcionam, — aliás, parte do mecanismo necessário para a própria sobrevivência, pois se não houvesse prazer, não haveria a procura pela sua satisfação… –, embora efêmeros e fugazes, obliteram a busca pelos verdadeiros valores e necessidades da vida do Espírito.
Mas, um dia chega a hora da saturação. Cansado de tantas dores, e do preço que paga pelo atendimento destes prazeres, acorda o Espírito para a sua realidade verdadeira. Surge a necessidade de entender o problema do ser, do destino e da dor, como muito bem pontuou o filósofo Espírita Léon Denis.
Cansado da escravidão sufocante que a matéria impõe, pois ela dá, mas pede muito mais em troca, cansado de não conseguir controlar seu destino, cansado de se consumir em quimeras que nunca lhe dão o retorno esperado, o que é compreensível, uma vez que o Espírito foi criado para outros fins, entra em choque com uma vida que não mais faz sentido.
Vivendo de forma totalmente desconectado com a sua essência verdadeira, sua alma passa a clamar por reajustes de curso… Surge o basta. Advém a conversão. Ocorre o despertamento para a busca daquilo que realmente pode satisfazê-lo.
Num primeiro momento, o homem procura exteriormente, pois assim estava habituado a fazê-lo. Num segundo, descobre que, antes de tudo, precisa realizar esta busca dentro de si mesmo.
Melhorar reconduz a estrada que precisa trilhar; porém, para isso, precisa identificar seus defeitos; e, daí, conhecer os motivadores das suas imperfeições.
Sem identificar os motivos íntimos que geram os pensamentos, sentimentos, emoções, vontades e ações, torna-se difícil alterar a rota, desapegar dos valores e crenças do passado, largar o domínio que a matéria exerce; com vistas a viver livre, e poder buscar um novo plano. Caso contrário, retarda-se o retorno ao plano original para o qual foi criado!
Agostinho enfrentou estas questões. Com o seu “toma e lê”, chegara a sua hora; era preciso estancar o mal interior, urgia plantar o bem dentro de si. Para isso, ele parou, esmiuçou, refletiu, estudou e chegou à conclusão que o meio mais eficaz, para lograr sua reforma íntima, era o de se conhecer.
“Um sábio da antiguidade vos disse: Conhece-te a ti mesmo” (aforismo inscrito no oráculo de Delfos). Enfim, o Santo de Hipona encontra sua fórmula!
Afinal, não fora o fabuloso Sócrates (469-399 a.C.) quem dissera que a melhor maneira de se aperfeiçoar é o auto exame?
O autoconhecimento permite relembrar a verdade que está escrita e adormecida no Espírito. Promove o despertar da consciência, que o leva a libertação.
Agostinho buscou trilhar este processo. A mesma dinâmica proposta por Sócrates: Ironia e Maiêutica, com a finalidade de se atingir o autoconhecimento.
Inicialmente, Sócrates buscava que seu discípulo dissipasse todas as ilusões que tivesse sobre o mundo e sobre si mesmo. Para isso, se utilizava da arte da interrogação. Fazer perguntas sobre perguntas até que o ser se conscientize dos elementos motivadores que mencionamos acima. Para depois, uma vez exposto o verdadeiro íntimo do discípulo (vaidades, vícios, etc.), colocá-lo no caminho do burilamento. Enfim, conhecer-se para reformar-se.
“Se Sócrates nos trouxe, pela primeira vez na historia do pensamento, um método de conhecimento que daria origem à autoridade da ciência e a autenticidade dos valores morais, já Agostinho que, sem dúvida recomendou esse método, foi quem na verdade explorou essa busca de interioridade e a exemplificou em si mesmo, pois sempre buscou mergulhar dentro de si e conscientizar-se de seus erros e defeitos, conforme expõe de forma autêntica em Confissões.”1
Ademais, não fora também Jesus a nos ensinar: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”? (João, 8:32)
Bem compreendido o mecanismo, Agostinho empreendeu sua busca religiosa e intelectual.
No seu livro A Verdadeira Religião, encontramos uma frase que se tornaria igualmente famosa: “Não vá para fora. Volte para dentro de si. No interior do ser humano reside a verdade.”
E como os conselhos de Agostinho de Hipona nos ajudam a encontrar um caminho seguro, urge abrir a nossa Caixa de Pandora…
Entreguemo-nos ao trabalho! Com coragem! Passo a passo, seguindo o roteiro seguro: olhando para dentro de si, encarando os erros e defeitos, aceitando-se como falho, sem se punir, e mudando o que tem que ser mudado.
Ademais, quando a alma conhece a si mesma, não só descobre seus defeitos, mas também descobre que é uma substância divinal, individuada. “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor, 3:16)
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1 SAYEGH, Astrid. Santo Agostinho e o autoconhecimento. Estudos Avançados de Doutrina Espírita. Nov, 2010.
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Editor Espírita e autor do livro A História do Espiritismo, da França de Kardec ao Brasil de Chico, coordena o Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP).

