EDITORIAL No 145 (Março, 2026) – “Fluido elementar e fluido universal de cada globo.”

Editor responsável: Fabio Dionisi
[Fabio Dionisi] fabiodionisi@terra.com.br

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Nosso objetivo, aqui, é capturar o que Kardec registrou sobre o fluido elementar e o fluido universal de cada globo.

Na obra de Kardec, por diversas vezes, nota-se que existe uma diferença entre o éter (fluido elementar) e o fluido universal que envolve e penetra cada globo deste universo infinito de Deus.

O elemento primeiro, mais básico, constituinte de tudo o que existe é denominado por Allan Kardec como fluido elementar; portanto, todos os seus sinônimos, também o são. Mantendo-se a ressalva que Kardec faz uma diferença sutil entre fluido universal (em todo o universo) e fluido universal de cada globo 1 (LE – 94 e LE – Q. 257), embora mantendo a mesma expressão: fluido universal.

Pelo estudo da GE – Cap. VI, item 45, concluímos que a Kardec usou a denominação: matéria cósmica, para uma forma condensada da matéria cósmica universal 2 (pt. II; cap. VIII; Q. 129) [substância simples primitiva. 3 (cap. VI; it. 10); matéria cósmica primitiva 3 (cap. VI; it. 10)].

Na GE – Cap. XIV, item 5, encontramos: “O ponto de partida do fluido universal é o grau de pureza absoluta, do qual nada pode dar uma ideia; o ponto do qual nada pode dar uma ideia; o ponto oposto é a sua transformação em matéria tangível. Entre os dois extremos, existem inúmeras transformações, as quais, se aproximam mais ou menos de um ou de outra (…).” 3 (p. 234-235; it. 2)

Duas conclusões, desta passagem:

(a) O fluido universal vai sofrendo modificações, desde o seu grau de pureza absoluta, inconcebível para nós, até o ponto oposto (formação da matéria tangível.

(b) Concluímos que Kardec utilizou a expressão “fluido universal” para uma faixa ampla; desde o vero início da matéria mais elementar que possamos conceber até o fluido mais próximo que será a matéria prima dos corpos celestes.

Na GE – Cap. XIV, item 6, podemos constatar que o fluido cósmico etéreo é o elemento primitivo que dá origem a matéria; além disso que fluido cósmico etéreo é sinônimo de elemento primitivo. Fluido cósmico significa, naturalmente, que se encontra no cosmo; mas, não necessariamente o que foi gerado diretamente por Deus. E, sim, algo já transformado; por isso, tudo nos faz crer de que se trata do material que se encontra espalhado no espaço (Universo). Aqui, faz-se mister registrar que, ao longo dos itens já analisados, quando encontramos a palavra “cósmica” (fluido cósmico etéreo, fluido cósmico elementar, fluido cósmico universal), entendemos que é o que se encontra espalhado no Universo, mas, algo já transformado, em relação a substância originalmente criada por Deus.

Interpretando as palavras de Kardec, alguns termos mais se aproximam do material primeiro criado por Deus, e outros estão mais próximos dos ma-teriais usados para a criação de formas dos mundos. Difícil, para nós, fazer uma distinção clara a respeito, portanto, qualquer separação seria imprecisa; até os Espíritos comunicantes, às vezes, deram duplo sentido a um mesmo termo.

Na RE (Revista Espírita), quanto aos sinônimos, encontramos: éter, fluido universal, elemento universal, fluido cósmico, princípio material.

Isso posto, iniciemos pelo O livro dos Espíritos 1, a primeira de suas obras, no campo da Doutrina Espírita.

Na Q. 94, ao perguntar de onde o Espírito tira o seu perispírito, a espiritualidade responde: “Do fluido universal de cada globo. É por isso que ele não é o mesmo em todos os mundos. Passando de um mundo a outro, o Espírito muda de envoltório, como mudais de roupa.”

Outro ponto: ao escrever que é do “fluido universal de cada globo. É por isso que ele não é o mesmo em todos os mundos” concluímos que já é o fluido universal um pouco modificado, e não é o fluido elementar (não se trata, portanto, do éter).

A Q. 257, que também trata da origem do perispírito, repete os conceitos da Q. 94, ao dizer que o Espírito constitui o seu perispírito tirando do meio ambiente, do fluido universal.

“Haurido do meio ambiente, esse invólucro varia de acordo com a natureza dos mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos mudam de envoltório (…). Quando vêm nos visitar, os mais elevados se revestem do perispírito terrestre.”

Sabemos que o perispírito é diferente em cada orbe. Sabemos que os orbes são diferentes. Tanto os orbes como o perispírito são feitos à partir do “fluido universal de cada globo. Por isso, mais uma vez ratifica que o fluido universal (de cada globo) é um pouco modificado, e não é o fluido elementar (não se trata do éter).

Agora passaremos ao Livro dos Médiuns, onde nossa primeira parada é a Q. 74. 2

Nos itens I e II encontramos interessante afirmativa: o fluido universal não é uma emanação da divindade; mas é criação de Deus.

Emanar, caro leitor, refere-se a originar-se ou ser proveniente de algo, como uma energia, um odor ou uma sensação (há uma perda de alguém ou de algo), enquanto criar envolve a ação de produzir algo novo, a partir do nada ou de elementos preexistentes.

Um segundo ponto extraído desta mesma Q. 74, é que não podemos concluir que, na obra de Allan Kardec, este termo “fluido universal” se refira somente ao material primeiro da criação Divina.

Embora no seu item III (Q. 74) diga: que o fluido universal é o próprio elemento universal. O princípio elementar de todas as coisas (“O fluido universal é o próprio elemento universal? — Sim, é o princípio elementar de todas as coisas.”), na mesma questão, no item V, encontramos que ele se modifica, mas continua recebendo a mesma designação: “Como o fluido universal se nos apresenta na sua maior simplicidade? — Para encontrá-lo na simplicidade absoluta, seria preciso remontar aos Espíritos puros. No vosso mundo, ele está sempre mais ou menos modificado, para formar a matéria compacta que vos rodeia. Podeis dizer, entretanto, que ele mais se aproxima dessa simplicidade no fluido que chamais fluido magnético animal.” Portanto, ele se modifica, mas continua recebendo a mesma designação. Tanto que, por exemplo, no LE – Q. 94 1 podemos ler: “fluido universal de cada globo. É por isso que ele [perispírito] não é o mesmo em todos os mundos” . A terminologia continua sendo a mesma…

Na Terra, “ele mais se aproxima dessa simplicidade [éter] no fluido que chamais fluido magnético animal [fluido vital].”

Na LE – Q. 427 deparamo-nos com que o fluido magnético é o fluido vital, eletricidade animalizada, que são modificações do fluido universal. 1 (p. 275)

Agora, esgotado O livro dos médiuns, sigamos para A gênese. 3

Nosso primeiro e único encontro, com o tema objeto de nossos estudos, dá-se no capítulo VI (“Uranografia geral”), em “A matéria”, no item 5.

A matéria cósmica primitiva, simples e una, dá origem a todos os materiais constitutivos no universo. Esses materiais um dia se decompõe.

“[Onde o prático levanta o véu] (…) vê, nos materiais constitutivos do mundo, a matéria cósmica primitiva, simples e una, diversificada em certas regiões na época do aparecimento destas [regiões] (…).” 3 (p. 92)

Fizemos uso de duas traduções, pois na do Dr. Guillon fica clara que a matéria cósmica primitiva é única e simples, e quando uma região do espaço nasce, ela se transforma, diversificando-se de acordo com a região formada.

Existe uma matéria cósmica primitiva, simples e una. Todas as matérias do mundo tem como ponto de partida esta matéria cósmica primitiva. 3 (p. 92)

Prossigamos, agora, com a Revista Espírita. 4

Ao estudarmos a obra kardequiana, uma das primeiras coisas que aprendemos é que muito material que se se encontra nesta revista pode ser encontrado nas cinco obras basilares, o pentateuco; portanto, nenhuma surpresa em nos depararmos com o que já mencionamos alhures.

(RE – Junho, 1858) “Teoria das manifestações físicas (segundo artigo).”

Neste artigo, quem responde às perguntas é o Espírito de São Luís.

Nele, deparamo-nos com o fluido universal, a substância etérea que en-volve os planetas.

Na pergunta 10, voltamos a encontrar que ele se encontra mais ou menos condensado de acordo com os mundos: “Esse fluido é o mesmo em todos os globos? — É o mesmo princípio, mais ou menos etéreo, segundo a natureza dos globos; o vosso é um dos mais materiais.” 4 (p. 150)

Na pergunta 11, voltamos a encontrar que ele se encontra mais ou menos condensado de acordo com os mundos: “(…) ele é mais ou menos condensado segundo os mundos.” 4 (p. 150)

O fluido universal varia de orbe a orbe. O princípio é o mesmos, mas ele pode ser mais material ou menos, segundo a natureza (elevação) dos globos.

Pelo que vimos até aqui, nesta comunicação (Junho, 1858), inferimos que o fluido universal já é uma forma transformada do fluido que deu origem a tudo (Hálito Divino, fluido elementar, ou éter). Ou seja, ele não é o fluido elementar; já sofreu modificações; é um fluido condensado; e estas transformações são de acordo com o estágio evolutivo do globo (orbe) que ele envolve.

(RE – Agosto, 1859) Neste mês encontramos dois artigos sobre o tema: “Mobiliário de além-túmulo” 4 (p. 197-205) e “O guia da senhora Mally” 4 (p. 215-217).

Quanto à modificação do elemento primitivo universal (ou elemento primitivo) para formação de outros corpos, temos que não há senão um elemento primitivo universal, do qual os diferentes corpos não são senão modificações. Este elemento primitivo, esparso no espaço, é sempre o mesmo; porém, “(pergunta 24) aqui sob uma forma, e ali sob uma outra” 4 (p. 216) (em cada orbe já se modificou).

A origem é sempre a mesma: elemento primitivo universal (ou elemento primitivo), espalhado no espaço cósmico. E que, segundo a sua nota, temos que este elemento primitivo também pode ser denominado por elemento universal ou matéria primitiva.

(RE – Março, 1866 – Item III) “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais.” 4 (p. 71)

Princípio universal, ou éter, ou fluido cósmico ou [fluido] universal, ou fluido primitivo universal, ou elemento primitivo.

“Entre esse elemento [primitivo] em sua pureza absoluta e o ponto em que se detêm as investigações da ciência [constituição íntima dos corpos], o intervalo é imenso. Raciocinando-se (…), chega-se a esta conclusão de que entre estes dois pontos extremos, esse fluido [primitivo universal] deve sofrer modificações que escapam aos nossos instrumentos e aos nossos sentidos materiais (…).” 4 (p. 71)

Deve-se ressaltar o conceito das transformações que o elemento primitivo passa, das quais resultam todos os corpos.

(RE – Março, 1866 – Item X) “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais.” 4 (p. 77)

Nela encontramos que o fluido cósmico é o princípio elementar universal, temos: “O fluido cósmico, enquanto princípio elementar universal, oferece dois estados distintos: o de eterização ou de imponderabilidade, que se pode considerar como o estado normal primitivo, e o de materialização ou de ponderabilidade, que dele não é (…) senão consecutivo. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível (…).” 4 (p. 77)

E como já estudamos, no LE – Q. 94 e no Item III do LM – Q 74, ele se modifica, mas continua recebendo a mesma designação, tanto para o fluido esparso no Cosmo quanto ao fluido de cada orbe.

Tanto que, por exemplo, no LE – Q. 94 1 podemos ler: “fluido universal de cada globo. É por isso que ele [perispírito] não é o mesmo em todos os mundos” . A terminologia continua sendo a mesma…

Para terminar, nossa última incursão deu-se em Obras Póstumas. 5

(OP – Parte I; Item III) “Introdução ao estudo da fotografia e da telegrafia do pensamento.” 5 (p. 92-94)

Outro definição interessante, a bem da verdade já registrado em outras obras: o fluido cósmico é emanado de uma fonte universal.

Por fonte universal temos: uma fonte única, princípio de (que dá origem à) todos fluidos cósmicos que envolvem os orbes, e assim por diante.

“O fluido cósmico, se bem que emanando de uma fonte universal (…).” 5 (p. 94)

Observação: emanar refere-se a originar-se ou ser proveniente de algo, como uma energia, um odor ou uma sensação [há uma perda de alguém ou de algo], enquanto criar envolve a ação de produzir algo novo, a partir do nada ou de elementos preexistentes.

Caro leitor, e assim terminamos mais um tópico, nos meandros da terminologia, ampla, encontrada na obra de Kardec.

Fiquem com Deus.

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1KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Edição comemorativa. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

2 KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Ou guia dos médiuns e dos evocadores. São Paulo: Lake, 2014.

3 KARDEC, Allan. A gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo.. São Paulo: Lake, 1989.

4 KARDEC, Allan. Revista Espírita. Jornal de estudos psicológicos. Coleção. 1858 a 1869.

(1858 a 1863) Araras: Instituto de Difusão Espírita, 1993

(1964 a 1869) São Paulo: Edicel, s/ano.

5 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. São Paulo: Lake, 2005.

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O autor é editor, articulista, escritor, palestrante, jornalista; responsável pelo CE Recanto de Luz – Pronto Socorro Espiritual Irmã Scheilla, em Ribeirão Pires (SP). www.irmascheilla.org.br.

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